22 abril 2014

Mídia irresponsável

14 de abril de 2014


Por Carolina Fasolo
Do Cimi

O Grupo Bandeirantes de Comunicação vai responder a uma ação judicial por ter veiculado, em rede nacional, duas reportagens com conteúdo discriminatório e informações distorcidas sobre os conflitos fundiários no sul da Bahia, responsabilizando caciques do povo Tupinambá de Olivença por toda a sorte de crimes, inclusive a morte de um agricultor, e acusando os indígenas de invadir fazendas, ameaçar e expulsar moradores.

O processo, de autoria da comunidade indígena Serra do Padeiro e do cacique Rosival Ferreira de Jesus, pede liminarmente o direito de resposta da comunidade Tupinambá às reportagens caluniosas, transmitidas pelo Jornal da Band e pelo sistema de radiodifusão do Grupo Bandeirantes com o intuito de incitar o ódio e a violência da sociedade contra o povo Tupinambá de Olivença, e para deslegitimar a luta dos indígenas pela demarcação de seu território, já reconhecido pela Fundação Nacional do Índio (Funai) como de ocupação tradicional.

A Funai publicou em 2009 o relatório circunstanciado, que delimitou a Terra Indígena (TI) Tupinambá de Olivença em cerca de 47 mil hectares, abrangendo partes dos municípios de Buerarema, Una e Ilhéus, sul da Bahia. Porém, o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, desobedecendo aos prazos estabelecidos na legislação, ainda não assinou a portaria declaratória, que encaminha o processo demarcatório da TI para as etapas finais.   

As reportagens difamatórias foram ao ar nos dias 25 e 26 de fevereiro, logo após a decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Joaquim Barbosa, de suspender as reintegrações de posse em sete áreas localizadas na terra Tupinambá. Sem tratar do contexto da demarcação da terra, o repórter Valteno de Oliveira declara: “Desde que a Funai resolveu criar a área para os índios a violência impera aqui na região. Um bando de caciques armados, liderados por Babau, o mais temido deles, faz o diabo”. A reportagem, levianamente e com informações inventadas, pinta o cacique Babau, da aldeia Serra do Padeiro, como um criminoso foragido da Justiça.  “O paradeiro de Rosival Ferreira de Jesus, o Babau, é desconhecido. Ele responde a oito processos, por estupro, ameaça e destruição do patrimônio público e agora é suspeito, junto com o cacique Cleildo, de ordenar a execução de Juraci (agricultor assassinado)”.

“O Grupo Bandeirantes parece desconhecer ou evitar conhecer o massacre dos Tupinambá ao longo da história, para difundir histórias inventadas: escondendo o verdadeiro conflito e massacre na região, inclusive os mais recentes. Ademais, sem nenhuma prova associa indígenas e, em especial, os caciques, aos crimes mais esdrúxulos, e até mesmo ao crime de estupro, com vistas a incentivar o ódio social por este povo”, consta na ação contra a emissora.

O povo Tupinambá de Olivença tem sofrido com um processo de violência e opressão desde os tempos de colonização. Histórico que as reportagens ignoraram sumariamente. Apenas nos últimos meses, além do agricultor, cinco indígenas foram assassinados dentro de sua terra. Três deles mortos em uma emboscada armada por pistoleiros. Em agosto de 2013, um ônibus que carregava estudantes indígenas foi atacado a tiros quando voltava para a aldeia. De agosto até janeiro de 2014, 28 casas no município de Buerarema – todas de moradores indígenas - foram incendiadas por grupos ligados aos invasores da terra Tupinambá.

Tropas da Força Nacional de Segurança e da Polícia Federal fixaram em 2013 uma base na área indígena, sendo substituídas pelo Exército Brasileiro em março de 2014. Os policiais perseguem, agridem moradores e ameaçam de morte o cacique Babau e seus familiares. Uma carta denúncia relatando as ações violentas da polícia  foi encaminhada à 6ª Câmara do Ministério Público Federal e ao Ministério da Justiça.

Nenhum desses fatos foi noticiado. “Após todos esses anos, ao arrepio da história, o mesmo povo, que vem lutando para não ser dizimado, sofre perseguição midiática, sendo taxado de terrorista, criminoso, assassino e estuprador, como se nota das reportagens aqui questionadas. O judiciário não pode quedar-se inerte ante esse atentado aos direitos dos povos indígenas, muito menos ante as falsas informações injuriosas, caluniosas e de má fé do canal de televisão réu, numa tentativa de jogar a sociedade contra aqueles que foram acossados, perseguidos e mortos em função da gana de não-indígenas pela terra naquela região, historicamente habitada pelo Povo Tupinambá”, reitera a ação.

O Ministério Público Federal também deve intervir nas fases do processo judicial, protocolado na última sexta-feira (4) na Justiça Federal em São Paulo.

Falso verde

acesse o relatório clicando aqui

Capítulo 1 | FALSO VERDE
Cadeia produtiva controlada pelo BNDES e pela Votorantim está ligada
a crimes ambientais, fraudes, grilagem de terras e lavagem de dinheiro.

Capítulo 2 | GREENWASHING
Como a Fibria usa ferramentas de marketing para lavar três
décadas de crimes, abuso e violações dos direitos humanos.

Capítulo 3 | FRONTEIRA FINAL
Empresas de celulose exercem práticas de confinamento humano
assistido e avançam para controlar os últimos focos de resistência.

Capítulo 4 | CAMINHO OBSCURO
Mergulhada em 900 processos, Veracel é acusada de lavagem de dinheiro,
corrupção e fraudes. Ministério Público aponta crime organizado.

Capítulo 5 | OS VALENTIM
Em 15 dias, Estela Valentim perdeu um filho, um irmão e um sobrinho,
contaminados pelo herbicida da Aracruz-Fibria.

Capítulo 6 | ANTIGOS E NOVOS TEMPOS
Povos indígenas e negros quilombolas são um estorvo para
as empresas que controlam a cadeia produtiva da celulose.

RESPOSTAS DAS EMPRESAS
Saiba o que dizem as empresas sobre
os resultados da pesquisa.

31 março 2014

Optativa do Programa de de Pós Graduação em Ciências Sociais - UFES 2014-1


Etnicidade, Territórios e Direitos

Prof. Dr. Sandro José da Silva [saandro@gmail.com]

Código: PGCS-8810

Curso: Mestrado em Ciências Sociais - Créditos: 4 - Carga horária: 60
Ementa: Teorias da etnicidade. A construção étnica dos territórios. Concepções e práticas sociais de produção e reprodução étnica dos territórios. Agenciamento, mobilidade étnica e conflitos nos processos de territorialização. O Estado brasileiro e os direitos étnicos. A etnogênese como fenômeno jurídico. Os direitos dos povos e comunidades tradicionais.

Avaliação:
1. assiduidade 75% de freqüência no mínimo
2. participação nos seminários
3. artigo científico

Programa de leituras
Sessão 1. Teorias da etnicidade
POUTIGNAT, P. & STREIFF-FENART, J. 1997. Teorias da Etnicidade. Editora UNESP.
BARTH, Fredrik. Grupos étnicos e suas Fronteiras. In: O Guru, o Iniciador e outras variações antropológicas. Rio de Janeiro: Contra Capa, 2000.
BOURDIEU. P. Capital simbólico e classes sociais. Novos Estudos CEBRAP. N.96, julho 2013. Pp. 105-115

Sessão 2. Concepções e práticas sociais de produção e reprodução étnica dos territórios
BOURDIEU. P. Identidade e região. In: BOURDIEU, P. O poder simbólico. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2003.
CICCARONE, Celeste. Drama e sensibilidade: migração, xamanismo e mulheres Mbyá. Revista de Indias, 2004, vol. LXIV, núm. 230.
OLIVEIRA, Osvaldo M. O projeto político do território negro de retiro e suas lutas pela titulação das terras. Tese UFSC. Capítulo 7 - Regulamentação das terras dos quilombos: conceitos, tensões e defrontamento de projetos políticos.
SILVA, Sandro José. Do fundo daqui: luta política e identidade quilombola no Espírito Santo. Tese PPGA-UFF. 2012. Capítulo 2 - A Consciência Negra.
BOHLIN, Anna. The politics of locality Memories of District Six in Cape Town. In: Locality and belonging. Edited by Nadia Lovell. Routledge. London.

Sessão 3. Agenciamento e conflito nos processos de territorialização
ARRUTI, J. M. 2000. Direitos Étnicos e territorialidade: conflito e convergência entre indianidades e negritudes no Brasil e na Colômbia. Horizontes Antropológicos, Porto Alegre, v. 6, n. 14, p. 93-124.
HALE, Charles R. Gobernanza, derechos culturales y política de la identidad en Guatemala. In: Cuaderno de Futuro Nº 23. Antropología del Estado: Dominación y prácticas contestatarias en América Latina. María L. Lagos y Pamela Calla (compiladoras). INDH/PNUD. La Paz, 2007.
SCOBAR, Arturo. Mas allá del Tercer Mundo. Globalización y Diferencia. Capítulo: La cultura habita en lugares: reflexiones sobre el globalismo y las estrategias subalternas de localización. Instituto Colombiano de Antropología e Historia. Bogotá, 2005.
SCOTT, James C. Exploração normal, resistência normal. Revista Brasileira de Ciência Política, nº 5. Brasília, janeiro-julho de 2011, pp. 217-243.
COUTO, Márcia Thereza. Gênero, família e pertencimento religioso na redefinição de ethos masculinos e femininos. Revista ANTHROPOLÓGICAS, ano 6, vol. 13(1), 2002. UFPE. Pernanbuco.

Sessão 4. O Estado e os direitos étnicos
Quijano, Anibal. Colonialidade do poder, eurocentrismo e América Latina.(disponível em http://bibliotecavirtual.clacso.org.ar/ar/libros/lander/pt/Quijano.rtf
LIMA, Antonio Carlos de Souza. Sobre indigenismo, autoritarismo e nacionalidade: considerações sobre a constituição do discurso e da prática da proteção fraternal no brasil. In: OLIVEIRA FILHO, João Pacheco de, ed. Sociedades indígenas e indigenismo no Brasil. Rio de Janeiro/São Paulo; EdUFRJ/Marco Zero, 1987.
YUVAL-DAVIS, Nira. Belonging and the politics of belonging. Patterns of Prejudice, Vol. 40, No. 3, 2006.
LANDA, Mariano Báez. 2009. De indígenas a campesinos miradas antropológicas de un quiebre paradigmático. Revistsa RURIS. Campinas. N.3 V.2.

Sessão 5. A etnogênese como fenômeno jurídico
BARRETO FILHO, Henyo Trindade. Tapebas, tapebanos e pernas-de-pau de Caucaia, Ceará: da etnogênese como processo social e luta simbólica. Série Antropológica UNB, 1994.
BARTOLOMÉ, M. A. 2006. As etnogêneses: velhos atores e novos papéis no cenário cultural e político. Mana, 12, n.1, p.39-68.
MARCUS, G.1991. Identidades passadas, presentes e emergentes: requisitos para etnografias sobre a modernidade no final do século ao nível mundial. Revista de Antropologia, vol.34
SAHLINS, Marshall. O "pessimismo sentimental" e a experiência etnográfica: por que a cultura não é um "objeto" em via de extinção (parte I e II). Mana vol.3 n.1 Rio de Janeiro. 1997

Sessão 6. Os direitos dos povos e comunidades tradicionais
SHIRAISHI NETO, Joaquim. A particularização do universal: povos e comunidades tradicionais em face das Declara e Convenções Internacionais. In: Direito dos povos e das comunidades tradicionais no Brasil: declarações, convenções internacionais e dispositivos jurídicos definidores de uma política nacional. [org.]. Manaus: UEA, 2007.


Bibliografia geral
ALMEIDA, Alfredo Wagner B. de.  Os quilombos e as novas etnias. In: O’DWYER, Eliane Cantarino (Org). Quilombos: Identidade étnica e territorialidade. Rio de Janeiro: FGV / ABA, 2002.
ALMEIDA, A. W. 1988. Terras de preto, terras de santo, terra de índio: posse comunal e conflito. Revista Humanidades. N. 15, Brasília, UNB, pp. 42-48.
ALMEIDA, Alfredo Wagner Berno de. Os quilombos e o mercado de terras. PORANTIM Ano XXVI. N0 272. Brasília-DF. 2005.
ANDERSON, Benedict. Comunidades imaginadas. Cia das letras. São Paulo, 2008.
ARRUTI, J. M. 2000. Direitos Étnicos e territorialidade: conflito e convergência entre indianidades e negritudes no Brasil e na Colômbia. Horizontes Antropológicos, Porto Alegre, v. 6, n. 14, p. 93-124.
BARRETO FILHO, Henyo Trindade. Tapebas, tapebanos e pernas-de-pau de Caucaia, Ceará: da etnogênese como processo social e luta simbólica. Série Antropológica UNB, 1994.
BARTH, Fredrik. Grupos étnicos e suas Fronteiras. In: O Guru, o Iniciador e outras variações antropológicas. Rio de Janeiro: Contra Capa, 2000.
BARTOLOMÉ, M. A. 2006. As etnogêneses: velhos atores e novos papéis no cenário cultural e político. Mana, 12, n.1, p.39-68.
BOHLIN, Anna. The politics of locality Memories of District Six in Cape Town. In: Locality and belonging. Edited by Nadia Lovell. Routledge. London.
BOLTANSKI, Luc. “La Dennonciation”. Actes de la Recherche en Sciences Sociales, (51), pp. 03-40, 1984
BOURDIEU, Pierre. O Poder Simbólico. Lisboa: Difel, 1989.
BOURDIEU. P. Capital simbólico e classes sociais. Novos Estudos CEBRAP. N.96, julho 2013. Pp. 105-115
CICCARONE, Celeste. Drama e sensibilidade: migração, xamanismo e mulheres Mbyá. Revista de Indias, 2004, vol. LXIV, núm. 230.
COMERFORD, John. Fazendo a Luta: Sociabilidade, Falas e Rituais na Construção de Organizações Camponesas. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 1999.
Convenção nº 169 sobre povos indígenas e tribais em países independentes e Resolução referente à ação da OIT sobre povos indígenas e tribais. — 2a ed. — Brasília : OIT, 2005.
CUNHA, Olívia Maria Gomes da. Reflexões sobre biopoder e pós-colonialismo: relendo Fanon e Foucault. MANA 8(1). Rio de Janeiro. 2002.
Decreto 6040/2004
ERIKSEN, Thomas Hylland. Ethnicity versus nationalism. Journal of Peace Research, vol. 28, no. 3, 1991.
FOUCAULT, M. A verdade e as formas jurídicas. Nau/PUC. Rio de Janeiro. 2001.
HALE, Charles R. Gobernanza, derechos culturales y política de la identidad en Guatemala. In: Cuaderno de Futuro Nº 23. Antropología del Estado: Dominación y prácticas contestatarias en América Latina. María L. Lagos y Pamela Calla (compiladoras). INDH/PNUD. La Paz, 2007.
LANDA, Mariano Báez. 2009. De indígenas a campesinos miradas antropológicas de un quiebre paradigmático. Revistsa RURIS. Campinas. N.3 V.2.
LEITE, Ilka Boaventura, 1991 Território Negro em área rural e urbana - algumas questões. Textos e Debates. Florianópolis, NUER/UFSC, ano 1, n.2
LIMA, Antonio Carlos de Souza. Sobre indigenismo, autoritarismo e nacionalidade: considerações sobre a constituição do discurso e da prática da proteção fraternal no brasil. In: OLIVEIRA FILHO, João Pacheco de, ed. Sociedades indígenas e indigenismo no Brasil. Rio de Janeiro/São Paulo; EdUFRJ/Marco Zero, 1987.
LITTLE, Paul E. Territórios sociais e povos tradicionais no Brasil: por uma antropologia da territorialidade. Brasília: UnB, 2002. Série Antropologia n° 322.
MARCUS, G.1991. Identidades passadas, presentes e emergentes: requisitos para etnografias sobre a modernidade no final do século ao nível mundial Revista de Antropologia, vol.34
MOREIRA, Vânia Losada. Entre as vilas e os sertões: trânsitos indígenas e transculturações nas fronteiras do Espírito Santo(1798-1840). Nuevos Mundos. URL : http://nuevomundo.revues.org/60746. 2011.
OLIVEIRA, João Pacheco. A viajem de volta. Contracapa, Rio de Janeiro, 1999.
OLIVEIRA, Osvaldo M. 2005. O projeto político do território negro de retiro e suas lutas pela titulação das terras. Tese UFSC.
POUTIGNAT, P. & STREIFF-FENART, J. 1997. Teorias da Etnicidade. Editora UNESP.
QUIJANO, Anibal. Colonialidade do poder, eurocentrismo e América Latina.(disponível em http://bibliotecavirtual.clacso.org.ar/ar/libros/lander/pt/Quijano.rtf
SAHLINS, Marshall. O "pessimismo sentimental" e a experiência etnográfica: por que a cultura não é um "objeto" em via de extinção (parte I e II). Mana vol.3 n.1 Rio de Janeiro. 1997
SCOTT, James C. Exploração normal, resistência normal. Revista Brasileira de Ciência Política, nº 5. Brasília, janeiro-julho de 2011, pp. 217-243.
SHIRAISHI NETO, Joaquim. A particularização do universal: povos e comunidades tradicionais em face das Declara e Convenções Internacionais. In: Direito dos povos e das comunidades tradicionais no Brasil: declarações, convenções internacionais e dispositivos jurídicos definidores de uma política nacional. [org.]. Manaus: UEA, 2007.
SILVA, Sandro José. Do fundo daqui: luta política e identidade quilombola no Espírito Santo. Tese PPGA-UFF. 2012.
SIMMEL, Georg. "The Sociology of Conflict".  American Journal of Sociology (1903). Disponível:http://www.brocku.ca/MeadProject/Simmel/Simmel_1904b.html (acessado em 12 de março de 2009)
WEBER, M. 1991. Relações comunitárias étnicas. In: Economia e Sociedade. Brasília: UNB, v. 1, p. 267-277.
YUVAL-DAVIS, Nira. Belonging and the politics of belonging. Patterns of Prejudice, Vol. 40, No. 3, 2006.

14 março 2014

APRESENTAR E REPRESENTAR: OS JONGOS E CAXAMBUS CAPIXABAS

Sandro José da Silva

A partir de uma etnografia com os jongueiros no estado do Espírito Santo, o
texto descreve as diferentes concepções dos mestres a respeito do que consideram sua
tradição e a representação pública de sua arte. Com base em uma abordagem
antropológica do conflito, que comporta uma espécie de economia de movimentos e
formas de socialidade, enfoca-se os processos e as trajetórias sociais dos mestres na
definição de seus direitos. Tratou-se de descrever as conjunturas que relacionam as
históricas de formação das memórias dos mestres àqueles contextos contemporâneos de
enfrentamento por reconhecimento de seus direitos étnicoraciais. Sugere-se que os
cenários de conflito nos quais os mestres interagem fazem parte das matrizes
constitutivas das suas identificações tanto quanto da maneira como eles narram suas
histórias, o que evidencia as formas de resistência tanto no plano cotidiano quando nas
relações com os agentes públicos e privados.


ABSTRACT

Starting from an ethnography with the jongueiros of the state of Espírito Santo,
the text describes the masters’ different conceptions about what they consider their
tradition and public representation of their art. Based on an anthropological approach to
the conflict, which involves a kind of economy of movements and forms of sociality, it
focuses on the processes and social trajectories of masters in defining their rights.
Conjunctures that relate the histories of memories formation of those masters with the
contemporary contexts of coping for recognition of their ethnic and racial rights were
described. It is suggested that the conflict scenarios in which masters interact are part of
the constitutive matrices of their identifications as well as the way they tell their stories,
which highlights their forms of resistance in both their daily life and their relationships
with public officials and private agents.


leia a íntegra do texto clicando no título
APRESENTAR E REPRESENTAR: OS JONGOS E CAXAMBUS CAPIXABAS

03 dezembro 2013

Videos sobre a temática dos quilombos e quilombolas

Agradeço ao Blog Ori as informações abaixo
http://oringrupodepesquisa.blogspot.com.br/p/videos.html


VÍDEOS

Sob a direção de Rodrigo Siqueira, o documentário Terra deu, terra come mostra a história de Pedro de Almeida, garimpeiro de 81 anos de idade, que comanda como mestre de cerimônias o velório, o cortejo fúnebre e o enterro de João Batista, que morreu com 120 anos. O ritual sucede-se no quilombo Quartel do Indaiá, distrito de Diamantina, Minas Gerais. 

Filmado em várias comunidades do estado do Maranhão, Kilombos procura ser o resgate de memórias e narrativas orais de uma cultura contemporânea, um contributo para uma antropologia visual de ideias, práticas e artefactos que são também o Brasil de hoje. 

O projeto Quilombos das Américas -- Articulação de Comunidades Afrorruraistem como obejtivo geral a promoção da soberania alimentar e a ampliação do acesso aos direitos econômicos, sociais e culturais de comunidades afrorrurais nas Américas, buscando fomentar a construção de rede de cooperação interinstitucional. 

Entrevista realizada em 2012 com Eliane Cantarino O'Dwyer, que desenvolve pesquisas etnográficas na abordagem de temas como identidade, etnicidade, organização social, práticas culturais e processos de territorialização, e tem experiência na elaboração de relatórios e laudos antropológicos sobre populações seringueiras e remanescentes de quilombos no Brasil. 

O documentário Memórias do cativeiro, dirigido por Guilherme Fernandez e Isabel Castro, edita o som dos depoimentos a partir de coincidências narrativas sobre a memória da escravidão e a experiência familiar dos depoentes ao longo do século XX, entrecruza seus significados com imagens da época de escravidão e de abolição no Sudeste cafeeiro. 

Registro de dança quilombola da comunidade de Mata-Cavalo - MT (2008)

Engenho Novo, dança característica da comunidade quilombola Furnas do Dionísio, assemelha-se ao movimento do engenho de cana, e seus versos lembram o trabalho com essa máquina e as conversas entre seus operadores. Os jovens da comunidade, juntamente com os mais antigos, estão tentando preservar essa tradição. Vídeo produzido na terceira edição do projeto Revelando os Brasis do Ministério da Cultura e do Instituto Marlin Azul. Roteiro e direção: Carlos Rodrigues Sandim.

Em Presidente Kennedy, divisa do Espírito Santo com o Rio de Janeiro, a empresa Ferrous pretende construir um porto para escoar minério produzido no quadrilátero ferrífero em Minas Gerais. O documentário contém depoimentos sobre os modos de vida de moradores das comunidades de Boa Esperança, Cacimbinha, Barrinha e Deserto Feliz.

A Comunidade Quilombola de João Surá se encontra no município de Adrianópolis e está localizada a beira do Rio Pardo no Vale do Ribeira divisa entre os estados de São Paulo e Paraná e é a Comunidade Quilombola mais antiga que se tem registro no Paraná, todavia ainda não recebeu a titulação de suas terras.

O Quilombo de Lapinha e a Articulação Vazanteiros em Movimento manifestam em prol da decisão do Juiz Federal da primeira Vara da Justiça Federal de Montes Claros, que deferiu a liminar de manutenção de posse da área ocupada até a titulação definitiva de território. O Juiz levou em consideração que as margens do rio São Francisco pertencem a União e não aos fazendeiros nem ao IEF. Um pequeno trecho do registro
"Uma vitória e a certeza que seguiremos lutando!"

Piloto (em baixa resolução) do projeto de produção audiovisual "Olhares: Brejo lugar território" (2010-2014) sobre a Comunidade Quilombola de Brejo dos Crioulos localizada no Sertão Gerais, região norte do Estado de Minas Gerais, às margens do ribeirão Arapuim. A parcialidade na justiça mantém presos 5 quilombolas sem qualquer prova de um crime ambientado no conflito. A morosidade do Estado Brasileiro tenciona o processo, desrespeita a comunidade e viola aos dispositivos internacionais de proteção aos Direitos Humanos como a Convenção 169 da OIT (Organização Internacional do Trabalho) aprovada pelo Decreto Legislativo 143 de junho de 2002 e o Pacto Internacional dos Direitos Econômicos, Sociais e Culturais recepcionado pela Constituição de 1988, no artigo 5º, paragrafo 2º, que garantem que as comunidades quilombolas, juntamente com outras comunidades tradicionais, possuem direitos especiais sobre seus territórios. 

11 setembro 2013

As formas de adoecer e curar



UFES – Departamento de Ciências Sociais
Introdução à Antropologia - Prf. Dr. Sandro José da Silva
Curso de Psicologia



Saúde, doença e processos curativos



Vitória, 2013



Sumário


Introdução
Sandro José da Silva 3
Análise sobre a performance do pastoreado, cura e rituais aplicados na religião da Igreja Evangélica Assembleia de Deus em Vitória/ES
Renata Fricks dos Santos 4
O ritual religioso curativo na Igreja Mundial do Poder de Deus
Abigail Marinho, Camila Rodrigues e Rebeca Schneider 11
O olhar do Movimento Hare Krishna sobre a relação saúde-doença
Natália Cleonice Pinheiro Duarte 16
As práticas Curativas e a denominação Batista por um olhar antropológico
Carolina Manzini Milanezi , Fabiula Goudinho do Nascimento, Joyce Souza da Fonseca 21
Etnografia: Práticas curativas na Igreja Universal do Reino de Deus
Francine de Brito Santos e Lívia Melo Sassemburg 26
A oração como prática de cura
Camila Silveira Bergantini, Isis Hoffmann Prates e Mayara Ciciliotti da Silva 31
Práticas Curativas da Igreja em Cariacica
Juliana Nascimento Lucas e Ruhana Caliari Fabres 36
A visão do Yoga como uma prática curativa
Ester S. Paganini, Júlia F. G. Pereira, Ramon P. Valim 43
Subjetividade e Cura no Kardecismo
Ana Carla Pantoja Gomes, Juliana Pereira Rodrigues e Tarcila Reuter Barros Mota 51
Práticas curativas informais empregadas por pessoas com transtornos mentais.
Fabrício Martins Pinto 58
A Igreja Messiânica e a cura pelo Johrei
Tuhany de oliveira sabino 63


Introdução
A presente coletânea é o resultado da disciplina Introdução à Antropologia, ministrada no segundo semestre de 2012. Seu objetivo principal é explorar casos etnográficos que associem a produção da cura e da doença entre grupos populares. Foram abordados casos entre grupos religiosos e leigos, mas que se aproximaram devido à abordagem centrada na perspectiva ritual e performática dos processos de socialização.
Neste sentido, tanto a cura como a doença não foram tratados como fenômenos biológicos ou naturais, mas como expressões culturais e históricas dos seus praticantes.
O maior desafio encontrado pelo trabalho da turma foi “sair” de seu universo de certezas, abandonar a imagem corrente sobre o sobrenatural, o charlatanismo e o embuste, que sempre recobrem as análises midiáticas dos grupos religiosos que oferecem processos curativos e adentrar no universo valorativo e simbólico dos sujeitos e suas crenças.
Antes disto, a turma se empenhou em compreender como e por meio de quais processos, os sujeitos elaboram sua doença e, dispondo-a em um conjunto de significados particulares, podem buscar uma interpretação para seus males, as causas e as possíveis soluções. Como veremos a seguir, notou-se durante a pesquisa que a busca de sentido, em muitos casos, é aquele elemento central que ocupa os sujeitos, mais que a certeza da cura. Neste mister, os sujeitos lançam mão de percursos ecléticos e não dogmáticos de produzir a cura. Neste sentido, uma benzeção, um passe, um banho de ervas e um analgésico sintetizado industrialmente não são contraditórios, mas compõem repertórios da cura que não devem ser negligenciados quando se analisa a produção da eficácia simbólica por parte daqueles que buscam a cura e os que se propõem a curar.
Após algumas seções discutindo pressupostos básicos da antropologia e da antropologia da saúde e da doença, foram realizadas no mínimo dois trabalhos de campo por cada grupo que consistiu em uma observação participante e no levantamento histórico da manifestação em análise. Duas seções de debates em sala de aula socializaram as ex-periências dos alunos, suas dúvidas e descobertas e ao final passou-se a redação de um modesto, mas sincero artigo sobre este percurso.
Sem o empenho dos alunos - os debates acalorados e muitas vezes o desânimo sobre este encontro de culturas, o estranhamento do familiar e a barreira cultural que o contato, a conversa e a aproximação destes fenômenos humanos suscitam -, não haveria resultado satisfatório. A todos eles, meus sinceros agradecimentos por terem aceitado este desafio.
Prf. Dr. Sandro José da Silva
Departamento de Ciências Sociais – UFES
Abril de 2013.

Análise sobre a performance do pastoreado, cura e rituais aplicados na religião da Igreja Evangélica Assembleia de Deus em Vitória/ES

Renata Fricks dos Santos

Resumo: O presente artigo tem como objetivo analisar a performance do pastor João (nome fictício) da Igreja Assembleia de Deus no bairro de Ilha de Santa Maria em Vitó-ria/ES e os rituais em relação à cura, através de um estudo de caso, feito através de entrevista qualitativa. Analisou-se também outro estudo de caso da Sr. ª Maria (nome fictício novamente), uma jovem que foi curada de problemas físicos e sociais através desta religião.
Através do artigo foi constatado que a performance do pastor e o ritual para a cura são meios importantes para o doente se obter a cura. A fé também é um fator considerável neste meio e o testemunho é uma forma do ex-doente continuar santificado, perma-necendo ainda com marcas de sua doença no corpo mesmo curado, para provar que ele havia uma doença para os demais.
Palavras-chaves: Assembléia, Performance, Rituais, Religião.

Introdução
Desde o Protestantismo a partir de 1517, criou-se grandes número de denominações religiosas e hoje no Brasil mais da metade da população é protestante.
Nisso, cabe-se a importância de se estudar como acontece os rituais nessa religião em relação à cura e entender como se estabelece e a performance do pastor diante dos fiéis.
De acordo com Rabelo apud Alves e Minayo (1994) é importante compreender o ritual como espaço por excelência, onde os doentes são levados a reorganizarem-se sua experi-ência no mundo.

Apresentação da entrevista com o Pastor João sobre o ritual da cura
A entrevista foi realizada com o Pastor João (nome fictício) da Igreja Assembléia de Deus localizada no bairro Santa Maria.  Os cultos da igreja acontecem nos dias domingo, terça e quinta das 19:00h às 21:00h.
Os cultos não são propriamente para a cura, mas acontecem orações para os doentes nos finais destes encontros quando os fiéis pedem o pastor para que ore para eles. De vez em quando acontecem cultos para orações para os enfermos, mas estes eventos são aleatórios combinados entre os fiéis.
O pastor João tem vinte e três anos de trabalho como pastor, e quando perguntado sobre como foi a descoberta do dom da cura relatou da seguinte maneira:
(Entrevista com João em 17/03/2013: _ Eu nem era pastor na época, havia um pastor no culto e uma moça desmaiou, o pastor quem esta lá, pediu para que eu pusesse as mãos sob a cabeça dela, eu fiz isso. Quando ela acordou, ela me disse que quando eu pus minhas mãos sob a cabeça dela, ela sentiu como se estivesse umas mãos pesadas na cabeça dela e ela viu duas mãos branca. Ela sentiu como se estivesse em um buraco e estas mãos brancas puxassem ela daquele buraco. )
Turner apud Alves e Minayo (1994) diz que os rituais atuam como forma de conduzir os indivíduos a determinadas formas e atitudes frente ao mundo, como isolamento de objetos e imagens de sua história ordinária e sua recombinação em novas histórias, focalizando em determinadas unidades simbólicas, combinando novos fortes estímulos intelectuais e sensoriais.
Rabelo apud Alves e Minayo (1994) descreve ainda que é importante analisar o ritual identificando os processos pelas quais o ritual cria transformação na experiência de seus participantes.
E por este motivo foi importante descrever o relato do pastor em referência a sua primeira experiência em relação à cura.
O Pastor João disse ainda que ele atende na igreja, nos cultos de domingo, terça e quinta cerca de 150 a 200 fiéis por semana, sendo queixas tanto problemas físicos, como doenças deles mesmos ou familiares, tendo queixas mais comuns dores e ainda problemas sociais como desentendimento entre casais.
Conforme Evans-Pritchard e Wartovsky apud Alves e Minayo (1994, p. 16) “Saúde, doença, cura incluem tanto o corpo doente como a esfera mental, os problemas sociais, calamidades, conflitos e disputas pessoais e políticas. ”

Assim como os autores acima citam é interessante abordar sobre as queixas como doenças os problemas sociais, sendo como, por exemplo, desentendimento de casais, como se a doença não fosse apenas algo que incomoda o corpo, mas também o espírito.
Em relato ainda do pastor o perfil mais comum que costumam buscar orações para a cura são as mulheres, tanto casadas quanto solteiras, sendo cerca de 70% mulheres e 30% homens e sobre o ritual que se é dado a oração para a cura, o ritual acontece da seguinte maneira:
(Entrevista com João em 17/03/2013: _ A pessoa ajoelha ou fica de pé mesmo, e eu faço a oração com unção (oração feita com óleo ). O óleo é aplicado na testa, e eu imponho minhas mãos sob a cabeça da pessoa e começo as orações, pedindo a Deus a cura.
Segundo Durkheim apud Alves e Minayo (1994) O que evidência o sagrado é o fato de ser acrescentado ao real. (. . . ) As impressões particulares das quais se experimenta, atri-bui-se a coisas relação com poderes excepcionais e virtudes que não possuem os objetos da experiência vulgar.
Assim, como Durkheim descreve no caso da Igreja Assembléia de Deus, o óleo ungido seria um objeto de fé para os cristãos para se obter a cura, sendo o azeite um óleo excep-cional com poder de curar estando junto com a oração.
O pastor João também descreveu que a prática de cura não foi aprendida, mas sim um dom dado por Deus. Sendo a cura válida para qualquer tipo de pessoa e a fé algo que pode interferir a cura do doente no momento.
O curandeiro, no caso o pastor, é um intercessor entre o doente e Deus, e a imposição das mãos uma espécie de performance importante durante a cura. A fé seria uma variável considerável no momento da cura, onde caso se a pessoa não tivesse fé ela não teria a cura.
A oração para a cura não possui valor financeiro, ela não é cobrada para os fiéis e nem é feito divulgação para as orações para obtenção da cura. O método para a cura, como foi citada acima é a imposição das mãos, considerada também como maneira da performance do pastor.
Em análise ainda da performance do pastor, ele nos cultos apresenta-se com terno, gra-vata e calça social, sempre dotado com a bíblia abaixo dos braços ou ao lado do banco onde senta-se.
Canesqui apud Alves e Minayo (1994, p. 26) cita que “Na articulação da experiência social e religiosa estão presente os jogos de poder entre as várias instâncias e, em outro nível, esses elementos remetem à unidade e diversidade, centralização e multiplicidade presentes na sociedade. ”

As roupas do pastor como cita Rodrigues, pode se interpretado como uma forma de autoridade e respeito entre os fiéis. Cada religião dependente de sua unidade ganha um significado, assim como na Igreja Assembléia de Deus objeto da pesquisa, no altar senta-se apenas os pastores, sendo o altar um objeto de hierarquia entre os fiéis, assim como as cadeiras em frente ao culto, que são lugares para os integrantes da igreja.
No altar na igreja dada, é importante ressaltar ainda uma hierarquia entre os próprios pastores, sendo a cadeira do centro, diferente das demais, pertencente ao pastor mais velho, chamado também pastor de honra.
A maneira da oração dos pastores é feita através de palavras de autoridade e finaliza como se estivesse santificado o doente que foi orado.
O pastor João finaliza a entrevista com a seguinte mensagem:
(Entrevista com João em 17/03/2013: _ Existem pessoas que possuem o dom de cura, mas que cobram por isso. Porém, a cura é um dom divino. Jesus disse: “Dai de graça, o que receber de graça. ”.
Mauss apud Alves e Minayo (1994) relata que a crença em um caso de milagre é a crença de todos os casos possíveis. Ao invés disso, uma negação pode estragar todo o edifício.
Dessa forma, evidencia o porquê de que o pastor acredita que a fé da pessoa interfere no processo da cura. E assim também a crença de que o valor da cura deve ser espiritual e não físico como aponta o pastor João, pois ele cria importância ao retomar ao antigo (exemplo citado na frase da bíblia), ou seja, o exemplo de Cristo, um exemplo, do que seria o santificado, que também seria o desprendimento dos bens materiais.

Apresentação da entrevista com a Srª. Maria sobre o ritual da cura
A srª. Maria é uma moradora da Serra, uma jovem de 28 anos. No dia da entrevista, ela subiu ao altar da igreja para relatar sua história de vida.
Em relato ela disse que antes de entrar na religião, estava desempregada e sem expectativas para crescer profissionalmente, foi quando surgiu a oportunidade de entrar no mundo do crime, e assim ela entrou, com uma expectativa de aumentar seu rendimento. No tráfico de drogas logo ela tornou-se chefe de tráfico do bairro onde morava.
Nisso, ela também se drogava, a sua família tentava-a resgatar daquele mundo, porém ela não se deixava se abalar com os conselhos familiares. Chegou a ter overdose e quase faleceu no hospital por conta disso e também levou um tiro no braço na época por causa de briga de chefes de tráfico.
Neste momento crítico de sua vida e no ápice de todos seus problemas, com problemas tanto físicos quanto sociais, surgiu uma velha amiga da qual a chamou para ir à sua igreja, ela não foi de imediato, mas pouco tempo depois foi nesta e assim aceitou Jesus  e todos seus problemas foram solucionados. Hoje, ela é casada, tem filhos, saiu do tráfico e é ex-usuária de drogas.
De acordo com Canesqui apud Alves e Minayo (1994) a doença é uma espécie de de-sordem, sendo o significado uma desorganização da pessoa, tanto da ordem social ou cósmica, favorecida nas classes subalternas urgência da consciência tanto quanto uma referência teórica para a organização do mundo, seus conflitos, e da posição do indivíduo.
A Srª Maria ainda relatou que ela possui tatuagens e já pensou em retirá-las, porém o pastor aconselhou-a a não retirá-las, pois como ele disse, elas servem de prova e marca de seu passado, da qual agora ela possui missão de ir testemunhar a todas as religiões e todas as pessoas, provando com as tatuagens o que aconteceu no seu passado.
O fato do testemunho da Srª Maria é como uma maneira para ela se santificar e permanecer santificada de seus pecados, descrita também na fala de Jesus Cristo na bíblia, onde ele cura um enfermo e o diz após a cura: “Vai para tua casa, para os teus, e anuncia-lhes quão grandes coisas o Senhor te fez, e como teve misericórdia de ti.  (Mc 5:19).
Nisto, se evidência também uma maneira da igreja retomar o antigo e assim permanece ainda nos dias de hoje, uma encenação da vida de Cristo, que se descreve na santidade e na punição dos pecados.

A relevância do estudo da Antropologia no ensino psicológico
O estudo da Antropologia, ou seja, o estudo do homem em todas suas vertentes se en-contra com a psicologia no dado momento onde possui sua interseção quanto ao homem em seu estudo psicólogo e social, com todas suas ideologias, crenças e maneiras de viver.
A antropologia e a psicologia possui a mesma complexidade quanto ao seu objeto de estudo, onde ambos são estudos feitos por homens para homens, nesta vertente se evidência a complexidade, que tem a importância de se estranhar e se afastar de seu obje-to, colocando-se em um distanciamento, para não haver erros nos resultados.
Laplantine (2003) descreve que a antropologia é dividida em várias partes e a parte da qual possui relevância para a psicologia seria a antropologia psicológica (relação entre a antropologia social e a cultural) que estuda os processos e o funcionamento do psiquismo humano. Confrontando-se nos indivíduos, através dos comportamentos (conscientes e inconscientes) o que sem ela não seria antropologia, já que esta estuda o homem em sua totalidade e assim a psicológica seria uma parte do homem.
Dessa forma, a dimensão psicológica (e também psicopatológica) é parte integrante da antropologia.
Nisso, se constitui a intersecção da psicologia e a antropologia, mostrando a importância de se estudar a antropologia que possui variáveis relacionadas à psicologia, evidenciando a relevância de estudar esse campo, onde se há a questão da identidade dos grupos sociais, suas culturas e assim as religiões e crenças, onde o homem leva em conta suas verdades e maneira de interagir no mundo.
Questão que a psicologia tem que estudar para entender a forma pela qual irá criar o diálogo com o paciente, que possui crenças e religiões e utilizará isso em sua relação com o psicólogo, médico, ou seja, quem for, pois sua cultura faz parte de si e assim o pro-fissional terá a responsabilidade de respeitar o paciente em seu todo, intercalando estas dimensões no tratamento para se obter também a cura, que o paciente não buscará somente com o profissional habilitado, mas também com o pastor, padre, pai de santo ou aquele da qual ele baseia sua fé.

Conclusão
A performance do pastor, através da imposição das mãos, roupas e discurso autoritária, demonstram fatores que pregam a posição do esperado pelos fiéis, onde o pastor tem de mostrar autoridade, respeito e liderança diante ao doente em relação a doença.
A hierarquia que acontece fora da religião, também ocorre na igreja, que tem de demonstrar uma ordem, diferente da doença, que seria uma desorganização que seria exemplificada quanto aos problemas físicos e sociais da Srª. Maria apresentada no artigo.
Os problemas sociais também são considerados doenças, pois desorganizam a vida da pessoa, inclusive desentendimento entre casais, que não condiz com a perfeição e santi-dade idealizada pela igreja, constado pela não prática do pecado.

Referência Bibliográfica
ALVES, PC ; MINAYO, MCS. , orgs. Saúde e doença: um olhar antropológico [onli-ne]. Rio de Janeiro: Editora FIOCRUZ, 1994. 174 p. ISBN 85-85676-07-8. Available from SciELO Books
LAPLANTINE, F. , 1943. Aprender antropologia. Trad. : Chauvel, M. A. São Pau-lo:Brasiliense, 2003.

O ritual religioso curativo – Igreja Mundial do Poder De Deus

Abigail Marinho, Camila Rodrigues e Rebeca Schneider

RESUMO
O artigo tem por objetivo descrever os rituais que englobam práticas curativas observadas em uma das reuniões realizadas na Igreja Mundial do Poder de Deus em Vila Velha, Espírito Santo. Contém os aspectos simbológicos e físicos da reunião e do ritual principal, o de cura, como enfoque da pesquisa.

INTRODUÇÃO
O presente artigo analisa o processo de cura efetivado por curadores de uma instituição específica: a Igreja Universal do Poder de Deus situada em Vila Velha, Espírito Santo. Para isso, as autoras fizeram um trabalho de observação dos rituais em dois diferentes momentos: o culto do clamor pela família e o culto do milagre urgente. Durante os dois momentos, foram observados alguns critérios como: a simbologia dos elementos e a sua eficácia, a performance do líder curador, a participação espectadores/objetos de cura, os meios, o arranjo do espaço, dentre outros.
Antes de entrar em detalhes sobre como se deu a pesquisa, é válido trazer a baila alguns pequenos conceitos importantes para a compreensão do ritual. Turner (Rabelo, 1994, apud, 1967, 1969, 1974, 1975) descreveu, em suas obras, os rituais como sendo o fator de condução de um novo posicionamento dos indivíduos perante as circunstâncias a serem enfrentadas, que deve ser feito a partir de uma combinação perfeita de símbolos, objetos, imagens e fortes estímulos sensoriais. Dessa forma, pode-se dizer que o rito traz consigo uma mudança nas experiências daqueles que se submetem a ele.
Para que haja uma melhor eficácia do ritual deve ocorrer uma perfeita manipulação dos símbolos, metáforas e significados por aquele que o conduz (Rabelo, 1994). Uma boa performance é fundamental para que o ritual adquira sua característica transformativa naqueles que dele participam. Na igreja pesquisada, o indivíduo que realiza essa perfor-mance é o pastor. Ele é quem ministra o ritual nas religiões protestantes e é ajudado pelos obreiros, que são aqueles que servem a Deus auxiliando durante todo o ritual dando aten-ção devida aos indivíduos presentes no ritual.
Uma das outras denominações importantes da Igreja Mundial, é a do fiel. Este é aquele quem crê e realiza as práticas definidas pelo ritual. Já Irmão, é o modo como os fiéis se cumprimentam. Muitas vezes o próprio pastor, durante sua performance, se dirige a eles como irmãos. Esse termo afetivo é devido à origem deles quanto ao sobrenatural: são filhos de um mesmo pai (Deus), logo são irmãos.
Consideremos agora os objetivos do ritual, cura e milagre, nos cultos da Igreja Mundial do Poder de Deus. Notoriamente a cura é considerada como o retorno do corpo ao seu estado normal, antes doente. Distintamente, Canguilhem a denota como uma nova dimensão da vida, pois a “vida não conhece reversibilidade: ela admite reparações” (Mina-yo, 1994, apud, 1982:149, 158), ou seja, o corpo não volta a ser o que era antes, sadio e bom; depois da cura ele volta novo, diferente. Assim, a cura religiosa se dá a partir de uma persuasão ao participante a construir um novo mundo, redirecionando sua atenção às novas circunstâncias. Logo, não ocorre um retorno ao estado inicial – corpo doente voltando a ser sadio – mas uma nova perspectiva do contexto no qual o doente está inse-rido (Rabelo, 1994, apud, Csordas 1983).
A principal disparidade entre o milagre e a cura está no seu aspecto de urgência e de impossibilidade. Segundo Minayo (1994), o milagre é a obtenção de algo impossível, que está fora do alcance das forças naturais. Pode ser a recuperação da saúde quando a medicina já não poderia solucionar os problemas, como cegueira, tetraplegia, entre outros; pode ser também a concessão de recursos financeiros por Deus a uma família que nada tem. Percebe-se, então, que a cura está empregada dentro do milagre; eles andam juntos, como ocorre nos cultos da Igreja Mundial, denominado culto do milagre urgente.
Pode-se dizer, assim, que o ritual curativo tem sua eficácia tanto na performance do seu dirigente quanto na crença e fé do participante sobre todo o rito. O objetivo está na reo-rientação do doente de sua atenção, com uma nova perspectiva para o contexto. Os elementos do ritual são extremamente importantes, pois eles atuam em nível psicossomático podendo, assim, garantir sua eficiência sobre os indivíduos doentes, (Minayo, 1994, apud, Mauss, 1979 e Mary Douglas, 1966) doenças essas físicas, mentais, sociais, todas aquelas que retirem o corpo de sua ordem normal. Vale acrescentar que os indivíduos do ritual são subjetivamente diferentes, entretanto, eles captam os símbolos e todo o processo de forma homogênea e se reorganizam em seus contextos, adquirindo suas respectivas curas (Rabelo, 1994). É, também, ponto importante para o ritual, a legitimação do discurso e dos seus significados, pois somente assim garantirá a adesão dos expectadores, transformando-os em participantes do processo.

DESENVOLVIMENTO
A Igreja Mundial do Poder de Deus tem uma história recente, porém de grande reper-cussão. Fundada em 1998 em Sorocaba, São Paulo, pelo apóstolo Valdemiro Santiago, tem grande parte de suas mais de 3500 instituições concentradas no estado de São Paulo, onde fica a sede, mas conta com templos em todo o Brasil e em outros países, como Portugal, Espanha, Estados Unidos, África do Sul, Japão, Suíça, México, Filipinas, dentre outros.
Fundada e liderada por um dissidente da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), durante seu surgimento arrastou fiéis e pastores da antiga instituição. O principal meio de difusão de suas crenças é através das grandes mídias de rádio e televisão, e, mais re-centemente, de internet, jornais e revistas.
Seu principal foco, de acordo com o site oficial, é o de “obedecer todos os mandamentos e preceitos deixados por Deus encontrados na bíblia, expandir o evangelho divulgando a manifestação de Deus no ministério através de curas e testemunhos. ” Além disso, tem como enfoque a salvação, a prosperidade financeira, a cura e os milagres urgentes.
O primeiro contato das autoras com o grupo estudado se deu pela observação de um ritual denominado Culto do clamor pela Família. Nesse episódio, os fiéis objetivavam a cura de algo que não estava de acordo com seus desejos no quesito familiar. Algumas das “doenças” que foram curadas nessa ocasião foram: parentes com problemas de adição às drogas e casais com dificuldades dentro do casamento, por exemplo.
No segundo contato, aquele em que a prática curativa teve mais enfoque, o culto tinha como objetivo a disponibilidade para a ocorrência de algo chamado “milagre urgente”. Para os diferentes fiéis, esse milagre possuía diferentes significados. Dentre os principais milagres abordados pelo pastor em seu discurso estavam: doenças físicas, dificuldade de relacionamento amoroso e até mesmo causas judiciais.
Comparando os dois episódios, pode-se perceber algumas semelhanças e outras diferenças. O que se destaca, no entanto, é o fato de que os participantes do culto são dos mais variados. Pessoas de diferentes gêneros, idades, raças e classes econômicas fre-quentam as reuniões; mas pode-se perceber que a assiduidade desses frequentadores também é muito variável. Muitas vezes, a busca pelas reuniões só se dá em situações que beiram o desespero ou quando em extrema necessidade de cura. Outras vezes, mesmo sem essa necessidade, os fiéis assistem a grande parte das reuniões.
Uma semelhança entre os dois cultos estudados está em como se dá o ritual. Por exemplo, a distribuição do espaço, a ordem cronológica do rito, e a presença de um momento específico para a cura, puderam ser observados como similares em ambos os momentos.
Toda a performance do pastor é muito notável e distinta. Desde o início do culto, em que há um momento de introdução ao tema por meio de uma música, destaca-se a amplitude sonora em que se dá o rito. O volume alto e o tom de voz marcante criam um cenário forte e diferente, propício para induzir os participantes a perceber o universo circundante de outra maneira, inserindo o doente em um novo contexto, diferente do vivenciado anteriormente.
Esse “clima” de mudança, no entanto, só é realmente efetivo quando associado a alguns símbolos que marquem a ocasião da cura. A principal representação da cura para os par-ticipantes da Igreja Mundial do Poder de Deus está no momento da expulsão de espíritos malignos do corpo do doente. De acordo com suas crenças, é da presença desse espírito que decorrem todos os problemas pelos quais a pessoa está passando. Por meio da imposição de mãos sobre a cabeça do doente em associação com um discurso de expulsão e luta contra o mal, e uma posterior unção da cabeça com um óleo abençoado com o poder do Espírito Santo, o doente se vê livre do que o atormentava.
A Igreja Mundial do Poder de Deus utiliza, em seus rituais de cura, alguns objetos como uma rosa branca (no culto do clamor pela família) e uma toalhinha (no culto do milagre urgente) para que, mesmo ao final do rito, o participante tenha uma recordação física do poder de Deus em sua cura. Outras práticas curativas podem não se utilizar desse artifício, deixando o momento da cura guardado somente na memória do participante.
Sob esse ponto de vista, pode-se dizer que a cura não está presente somente naqueles rituais em que ela é divulgada. Até mesmo alguns pequenos momentos cotidianos podem ter um resultado milagroso na vida de uma pessoa. Portanto, mesmo não se utilizando desses termos como sendo seu objetivo principal, a psicologia pode ser entendida como uma prática curativa. Isso porque após um ritual que pode durar algumas visitas, o cliente passa a perceber o mundo a sua volta sob uma nova perspectiva, diferente da que ele se encontrava anteriormente e que se apresentava para ele como um tormento ou uma doença. É possível inferir, assim, que a psicologia cura.

CONCLUSÃO
Percebe-se, então, que práticas curativas não são somente aquelas desenvolvidas pelos profissionais da medicina e dos conhecedores do corpo humano. Elas também podem ser exercidas por outros segmentos: curandeiros, espíritas, pentecostais, caboclos, ou até em atividades de yoga, por exemplo. Ou seja, a cura não está baseada apenas na reestruturação da saúde, mas também na criação de um novo corpo reorganizado psicológica, social e fisicamente. Podemos entender, assim, a referente pesquisa como uma comprovação da psicologia como prática curativa.
É importante salientar que a busca pela cura e pelo milagre urgente não é uma peculiaridade de nenhuma classe, gênero, idade, ou nenhuma outra classificação. Todas as pessoas possuem um corpo e, portanto, estão suscetíveis a fatores que podem levá-los à uma busca pela cura.
Se feita uma analise um pouco mais profunda, podemos inferir que a cura não está em todos os objetos e símbolos manejados durante o ritual, mas na crença de que o processo surtirá efeito. Entretanto, se fossem retirados a simbologia e a performance não existiria o ritual, que por sua vez, não engendraria na fé de que a cura ocorreria. Ou seja, o ritual e todos os seus elementos são de extrema importância no desenvolvimento da crença oca-sionando a cura e o milagre esperado.

BIBLIOGRAFIA
CANGUILHEM, G. (1982) (2ª Ed. ). O Normal e o Patológico. Rio de Janeiro: Ed. Forense Universitária.
CSORDAS, T. (1983). "The Rhetoric of Transformation in Ritual Healing" Culture, Medicine and Psychiatry, 7: 333-375.
MAUSS, M. (1974). Sociologia e Antropologia, vol. 1, São Paulo: Epu/Edusp, . 1979. Antropologia. São Paulo: Editora Ática.
MINAYO, M. Representações da cura no catolicismo popular. In: ALVES, P. C. ; RABELO, M. Saúde e doença: um olhar antropológico. Rio de Janeiro: Ed. Fiocruz, 1994. p. 57-71.
RABELO, M. Religião, ritual e cura. In:______. Saúde e doença: um olhar antropoló-gico. Rio de Janeiro: Ed. Fiocruz, 1994. p. 49-56.
TURNER, V. (1967). The Forest of Symbols. Ithaca, Cornell University Press.
—. (1969). The Ritual Process. Chicago, Aldine.
—. (1974). Dramas, Fields and Metaphors. Ithaca, Cornell University Press.
—. (1975). Revelation and Divination in Ndembu Ritual. Ithaca, Cornell University Press.


O olhar do Movimento Hare Krishna sobre a relação saúde-doença

Natália Cleonice Pinheiro Duarte

RESUMO
Este artigo, de caráter etnográfico, tem como objetivo expor o modo como o Movimento Hare Krishna, que se localiza na Rua Flávio Abaurre, nº 139, Bairro de Lourdes em Vitória, ES, se relaciona com a doença e as possíveis práticas curativas aplica-das. Isso foi feito a partir da observação participante da cerimônia realizada no local e de entrevistas com alguns membros do movimento. A doença é percebida como uma consequência da manifestação corporal intimamente relacionada ao espírito, quando este se encontra desvinculado da proposta essencial do movimento Hare Krishna.
Palavras-chaves: Moviemnto Hare Krishna. Saúde. Doença. Ritual.

INTRODUÇÃO:
Estudos mostram que as práticas de rituais religiosas têm a capacidade de reinserir o indivíduo em um contexto psicossocial que sofre transformações contínuas. Rabelo (1994) fala do poder que os rituais exercem sobre a reorientação da visão de mundo do sujeito. Neste trabalho, tentaremos enxergar, a partir da ótica do praticante do Movi-mento Hare Krishna, a percepção da doença e a experiência curativa.
Para isso, vamos perceber que todo o modo de fazer o ritual, como o corpo, os símbolos, as disposições dos objetos e das pessoas, o tom de voz, a música, a dança, o ritmo, o silêncio, etc. influenciam no efeito convincente dos significados, o qual Kapferer (1979), citado por Rabelo (1994) chamou de performance. Veremos também o quão importante é a narrativa, tanto durante a cerimônia, quanto no cotidiano dos praticantes. O uso de palavras e expressões, assim como todas as esferas de comunicação em comum entre os praticantes, evidencia a imensidade de significados propôs da visão de mundo desse grupo. Tais práticas nos fazem refletir criticamente sobre suas implicações na sociedade que integra o homem total e, além disso, nos faz refletir sobre a própria condição humana de ser natural e, ao mesmo tempo, cultural e complexo.

DESENVOLVIMENTO:
O Movimento Hare Krishna é denominado internacionalmente por Sociedade Internacional para a Consciência Krishna (ISKCON, sigla em inglês). Foi fundado em 1966, em Nova York, por Bhaktivedanta Swami Prabhupada, que tentou trazer o conhecimento védico indiano para o ocidente em um constante movimento para que todos possa alcançar a integral devoção à Krishna. Segundo um dos entrevistados, Bhakti ‘Skati Das, Krishna é a suprema personalidade de Deus. Percebi que ele é o eixo pelo qual se mantém a visão de mundo desse grupo.
No Espírito Santo a instalação do Movimento chegou em 2008. Gokula Devi Dasi, casada com o atual representante do Movimento no Estado, Guruprema Dasa, disse-me que os primeiros encontros aconteciam em parceria com uma escola de Yoga em Vitória. Ao final de 2012 instalaram-se em uma residência, habitada por praticantes, localizada no Bairro de Lourdes em Vitória. As cerimônias, abertas ao público, realizam-se no primeiro cômodo da casa.
A primeira e a segunda visita deram-se aos domingos, respectivamente, no dia 17 de março e 07 de abril de 2013 às 10 horas, momento de início da cerimônia, com início do canto de mantras. O aspecto é de uma casa comum. Em minha primeira visita, alguns praticantes de vestimentas e cortes de cabelos exóticos, terminavam um pequeno lanche. Apresentei-me e fui convidada, com certo entusiasmo, a participar do canto de mantras. A todo o momento foi-me permitido o registro de fotos e vídeos de suas práticas ritualísticas. O cômodo era decorado com alguns quadros simbólicos, como a imagem de Krishna e Prabhupada. Havia um grande tapete e almofadas no chão, onde as pessoas sentavam-se em uma forma semelhante a um círculo, com as pernas cruzadas. Três homens, de roupas leves e alaranjadas tocavam cada qual um instrumento diferente e incomum. Produziam uma música lenta, envolvente e marcante. Algo próximo de um tambor, o Mrdanja e o Kartalas, uma espécie de pratos de bateria pequenos, fazia uma marcação compassada e forte. O argônio, que parecia uma sanfona modificada, acompa-nhava os tons cantados do mantra.
Repetiam constantemente palavras e sânscrito, língua antiga da Índia, que estavam fixadas na parede: “Hare Krishna Hare Krishna Krishna Krishna Hare Hare Hare Rama Hare Rama Rama Rama Hare Hare”. Em minha segunda visita, Gokula Devi Dasi disse-me que a repetição dessas palavras, que ela chamou de Maha Mantra, era uma forma de elevar o espírito e ocupar a mente em dedicação afetuosa à Krishna. De qualquer forma, ao participar, pude perceber a performance. O canto do mantra facilitava a transição de um estado consciente para outro mais ameno, que favoreceu a meditação. Porém essa meditação não é necessariamente uma concentração retraída. Ao contrário, mulheres, crianças e homens batiam palmas e mexiam o corpo, sentadas ou em pé, ao ritmo da música. A duração que experimentei nessa etapa pareceu-me diferente e sem referência quando comparado à duração de um tempo cronológico. O canto de mantras durou 1 hora.
Em seguida, haveria outra hora para o chamado “leitura das escrituras”. Nesse dia, eles receberam uma espécie de sacerdote que parecia exercer algum tipo de autoridade nas relações hierárquicas que mantinham. Maharaj Chandramukha, como foi chamado, leria as escrituras de um livro sagrado, o Bhagavad Gita, cuja eficácia simbólica era forte, pois alí estaria a base das ideias do Movimento. Para tanto, Maharaj, o único envolvido por um colar de flores no pescoço, citava alguns trechos em sânscrito do Bhagavad Gita e todos respondiam em coro na mesma língua. Isso evidenciava o pertencimento a uma identidade de um grupo, pois em situações como essa eu não soube me comportar de forma essencialmente semelhante.
Após a leitura, Maharaj fez comentários sobre tais escrituras, numa tentativa de atualizá-las em nossos contextos. Seus comentários atravessaram diversas vezes o discurso dos outros entrevistados durante a segunda visita, principalmente quando os interroguei sobre suas práticas curativas. Segundo Maharaj, Prabhupada escolheu vir para Nova York em 1966 porque alí predominavam as doenças ocidentais, principalmente de cunho espirituais. Tanto o homem daquela época, quanto o homem atual dão um grande valor em atender imediatamente os desejos e a satisfazer os infinitos prazeres dos sentidos corporais, colocados por ele em um plano material, que são breves e tendem à morte. A felicidade ou a plenitude do espírito humano é estar na plenitude de Krishna, purificando-se e servindo-o.
Essa perspectiva está muito próxima à ideia própria desse grupo sobre a relação saúde-doença. Um quarto praticante, Jayanantha Dasa, disse-me que eles não possuem rituais específicos para a cura física ou espiritual. Toda a base do Movimento Hare Krishna e seus rituais estão relacionados à devoção afetuosa à Krishna. A aquisição do bem estar mental e a ausência de doenças orgânicas são uma consequência da vida integralmente voltada para a devoção afetuosa à Krishna, um deus personalista que reúne todas as boas qualidades, ou como eles dizem, é o Todo Atrativo.
Assim, Guruprema Dasa, que conversou por e-mail comigo logo após minha se-gunda visita, disse-me:

“A base da filosofia da consciência de Krishna é que somos entidades espirituais eternas e que o nosso corpo é uma dádiva divina – um veículo pelo qual caminhamos neste mundo. Por outro lado, a cultura moderna do culto excessivo ao corpo é apenas perda de tempo.
É importante cuidarmos da doença do eu (da alma), sem, contudo negligenciar o corpo material. Entretanto as duas coisas não devem ser colocadas no mesmo patamar. Qualquer pessoa em sã consciência pode entender que vale mais a pena investir no eterno do que no temporário. Devemos cuidar do corpo apenas para mantê-lo minimamente saudável a fim de que possamos nos dedicar ao que realmente importa – a vida espiritual.
Contudo, nós (seres humanos), em nome de uma sofisticação ilusória, criamos uma sociedade baseada em falsas necessidades e, com isso, fizemos surgir muitos problemas e doenças. Sob essa ótica, a proposta de sofisticação do Movimento Hare Krishna está no conceito de ‘vida simples e pensamento ele-vado’. Ao adotarmos uma vida simples, poderemos evitar muitas doenças do corpo”.


É visto que o corpo é a via de comunicação pelo qual o espírito tem o potencial de sacrificar constantemente os desejos. O valor obtido pelo sacrifício permite o sucesso de uma vida plenamente feliz com Krishna.
 Após a leitura das escrituras, às 12 horas se dá o momento da cerimônia devocional. Um altar em forma de prateleiras antes encoberta por cortinas, é desvendado. Há muitas fotos de devotos especiais de Krishna, como Prabhupada, flores e, no topo do altar, há pedras sagradas decoradas com flores e caracteres que dão a intenção de ser um rosto. O sacerdote Bhakti ‘Skati Das fazia oferendas à Krishna ao lado do altar. O canto de mantras é repetido, de forma mais alegre. Todos ficaram em pé e dançavam. Aqui a performance é diferente. A intensidade do agir, a música, o ritmo, as vozes, as danças gradativamente ganharam vigor até que se chega ao clímax. De repente, um dos praticantes gritou em sânscrito algumas vezes, onde todos respondiam em coro. Ajoelharam-se e fizeram reverência ao altar. Seguiram para o almoço lacto vegetariano, no qual não estive presente. Houve muita insistência para a minha permanência, já que a refeição integra a cerimônia.
Os rituais observados condizem em muito com essa perspectiva. Jayanantha Dasa reafirmou o aspecto do corpo como via de sacrifício e controle espiritual sobre os desejos. Não ingerir alimentos de origem animal, significa, nessa perspectiva, seguir com uma vida equilibrada e simples. Assim ocorre também com o princípio de não contaminar-se com substâncias tóxicas e não ter relações com jogos de azar. São práticas de purificação que conectam de alguma forma o espírito imortal e o corpo mortal.

CONCLUSÃO
O Movimento Hare Krishna possui rituais que transcendem a finalidade de curar. Os males provêm quando o praticante não atende a proposta fundamental do movimento e, segundo foi coletado, está com o modo de vida voltado à satisfação das paixões e desejos dos nossos sentidos corporais. Os rituais, carregados de significados, buscam a integral devoção a Krishna e chamam por hábitos equilibrados, controlados e simples, que levam, consequentemente, a uma vida saudável.
Este trabalho se constitui de um exercício do reconhecimento da alteridade que atravessa o campo da saúde. Ensina-nos que é importante não estar do lado de fora da própria sociedade e nos propõem a praticar a experiência de um total encontro com outras visões de mundo. Segundo LaPlatine (1943) “De fato, presos a uma única cultura, somos não apenas os à dos outros, mas míopes quando se trata da nossa. A experiência da alteridade leva-nos a ver aquilo que nem teríamos conseguido imaginar”.
Portanto, essa perspectiva antropológica se faz necessária à formação do Psicólogo. Este deve estar atento e imerso ao discurso do outro, desarmado de discursos hegemônicos e horizontalizar os saberes para que se compreenda a visão de mundo do outro e para que se permita que entremos no seu universo de significados.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
ALVES, PC. , and MINAYO, MCS. , orgs. Saúde e doença: um olhar antropológico [online]. Rio de Janeiro: Editora FIOCRUZ, 1994. 174 p. ISBN 85-85676-07-8. Avai-lable from SciELO Books . pg. 47 a 49. 
LAPLANTINE, F. , 1943. Aprender antropologia. Trad. : Chauvel, M. A. São Pau-lo:Brasiliense, 2003.
MINAYO, M. Representações da cura no catolicismo popular. In: ALVES, P. C. ; RABELO, M. Saúde e doença: um olhar antropológico. Rio de Janeiro: Ed. Fiocruz, 1994. p. 57-71.


As práticas Curativas e a Denominação Batista por um Olhar Antropológico

Carolina Manzini Milanezi
Fabiula Goudinho do Nascimento
Joyce Souza da Fonseca


Resumo: O presente artigo irá abordar o tema da Denominação Batista, para tanto, o grupo utilizou como fonte de pesquisa e observação a Igreja Batista Monte Sinai, situada no Bairro da Penha, Rua Engenheiro Rubens Bley, nº 244, Vitória – ES. A pesquisa contou com a participação do pastor Celson Varejão Nascimento. A conclusão do grupo, baseada na entrevista e no que foi observado, é que a denominação citada acima acredita que pratica a cura.

Introdução
O grupo optou por pesquisar sobre a Denominação Batista, buscando desde seus pri-mórdios até os dias atuais, englobando nisso suas especificações visando a explicação das mesmas. Ao participar do culto o grupo pode identificar algumas peculiaridades da igreja sendo essas: O pastor, o irmão, o culto em si, os dízimos, o pecado, o batismo, a trindade, a reverência, a benção, o milagre, o dom, a adoração, as Escrituras (Bíblia Sagrada) a Ceia do Senhor, a oração e o jejum. Cada um desses termos será explicado no decorrer do artigo.
O significado da palavra pastor é o “guardador de rebanho” (definição retirada do dicionário online de Português, no site http://www. dicio. com. br/). Na Igreja Batista, ele é destinado por Deus para pastorear, ou seja, ele é enviado pelo Senhor para levar a sua palavra as pessoas. Esse dom, de levar a Palavra Sagrada aos fiéis é dado por Deus, que capacita o mesmo, para que esse possa cumprir a sua missão aqui na Terra.
O dom, como já foi dito ele é uma dádiva Divina, quando o mesmo é dado por Deus ele deve ser usado em prol do evangelho. Na Igreja Batista acredita-se que se o dom não for usado ou se este for usado incorretamente, será feito um julgamento onde o Senhor irá cobrar o motivo de não tê-lo usado da forma que foi designada. A exemplos de dons poderiam ser citados, cantar, falar em línguas, o dom da palavra, o dom do entendimento etc.
As Escrituras (Bíblia Sagrada) são o manual de fé e conduta do crente, ela é baseada em estórias reais, e muitas dessas mesmas são chamadas de parábolas que tem como finali-dade o ensinamento de alguma conduta cristã. A Igreja Batista acredita que a Bíblia foi escrita por homens iluminados por Deus. Os cristãos estudam a Bíblia buscando ser afetados por sua mensagem intrínseca que está presente em suas palavras.
O irmão é um termo que se utiliza na Igreja Batista para se referir ao outro, tendo em vista que todos ali presentes são filhos de um mesmo Pai, Deus.
O dízimo, é uma obrigação do cristão, corresponde a dez por cento do salário do mesmo. Esse dinheiro é destinado para a sustentação da igreja é uma chamada do Senhor para que a partir do dízimo possa agradecer por aquilo que tem recebido do mesmo.
A reverência é um estado de espírito. A partir do momento que uma pessoa se prontifica a ir ao culto ela começa sua preparação em casa, isso engloba desde a escolha da roupa até estado de concentração mental para assim poder receber e entender a mensagem que será pregada no culto.
A adoração é o foco do culto, todas as partes deste são ministradas pra que o ato de adorar seja concretizado. Deus, para a Denominação Batista, tem a necessidade de ser adorado, por conta desse fato, a adoração seria uma obrigação do fiel, se dando no ato de cantar, orar, ministrar a palavra e principalmente adotando uma conduta de vida cristã correta.
O pecado é algo que deve ser evitado ao máximo na vida do cristão, acredita-se que ele afasta o homem de Deus. Para exemplificar, pecado é tudo que o homem faz que não agrade a Deus, sejam atitudes, pensamentos, vontades, enfim. Os dez mandamentos, são exemplos de condutas que o homem deve seguir, ao ler esses mandamentos podemos ver “regras” como, não matarás, não roubarás, não cobiçarás a mulher do outro, entre outras, todas elas partem do princípio de que Deus não aprova esses comportamentos. Ao matar alguém, você estará tirando uma vida que Deus deu aquela pessoa, portanto só Ele pode tirar, e também estará matando ao seu irmão.
O jejum é uma prática. A Igreja Batista acredita que a alma é elevada através deste ato, ao praticá-lo a pessoa deve abdicar de algo que gosta de comer, ou até mesmo de uma alimentação diária, para poder se aproximar de Deus e limpar-se do pecado que a afastou dEle.
A trindade. Os cristãos, baseados na Bíblia, acreditam que há Deus Pai, Deus Filho e Deus Espírito Santo. Deus Pai seria o criador de todas as coisas, que segundo a Bíblia levou sete dias para criar o mundo e tudo o que nele se encontra; Deus Filho, seria a encarnação de Deus em uma forma humana, que veio ao mundo para morrer pelos pe-cadores e salvar a humanidade da condenação de seu próprio pecado; e Deus Espírito Santo que seria um consolador que veio depois que Jesus morreu na cruz, ressuscitou e foi de volta para o céu.
O batismo é um ritual de passagem que ocorre quando o pastor faz a conversão de uma pessoa, ou seja, quando ela aceita Cristo em sua vida, dizemos então que ela saiu de uma vida mundana para uma vida cristã. A partir do batismo todo o pecado existente naquela pessoa é retirado, como se fosse uma purificação da alma. É justamente por isso que é feito nas águas (rios, lagos ou piscinas) a pessoa mergulhando simboliza o afogamento do pecado e quando ela levanta essa se encontra livre de seus pecados mundanos, ou seja, preparada para uma vida de santidade.
Na ótica das práticas curativas o batizado poderia ser visto como uma cura do espírito, pois este eleva a alma da pessoa a um estágio onde esta, agora, se encontra pura, santifi-cada.
Benção e milagre são dois conceitos que colocados em discussão no grupo foram interpretados como um só, porém após a entrevista com o pastor Celson Varejão Nascimento, foi constatado que são coisas distintas. Benção é como se fosse uma proteção divina, o cristão ora pedindo para Deus o abençoar. O milagre á algo considerado impossível ao homem, quando os médicos já não têm mais o que fazer para tentar recuperar uma pessoa de um coma profundo e esta subitamente acorda sem nenhuma sequela, dizemos ai que Deus atuou realizando um milagre em sua vida.
A Ceia do Senhor é um ritual em que o próprio Jesus deixou como legado para que seus fieis relembrasse sua vida e sua morte, onde Ele coloca como o pão representando o corpo de Cristo e o vinho o sangue derramado por Ele na cruz. Porém para participar da ceia o cristão deve fazer uma autoanalise e através desta verificar se está apto para realizar esse ritual, se ele se encontrar em pecado, não é digno de participar do mesmo.
A oração é a forma de conversar com Deus, através dela o cristão acredita que pode expor seus desejos, alegrias, angustias a Cristo e que ele irá ouvir a suas preces e responder da melhor forma as mesmas.
O culto é momento em que acontecem vários rituais como a oração, o batismo, a ceia, entre outros. É um período de tempo que os fiéis disponibilizam para estar na igreja, envolvidos com as atividades da mesma.

Desenvolvimento
1. Contexto Histórico
Fugindo de uma perseguição do Rei James I da Inglaterra, Thomas Helwys, advogado e estudante da bíblia, se refugiou na Holanda. De volta de lá, em 1612, organizou com os que voltaram com ele, uma igreja em Spitalfields, nos arredores de Londres. É esta Igreja, que agora inicia a linhagem de igrejas batistas que começam a crescer na Inglaterra sob severa perseguição por dissentirem da igreja oficial, a Igreja Anglicana. Essa perseguição os levou a várias partes do mundo, e em especial às colônias da América do Norte, em busca da liberdade religiosa.
Thomas escreveu o livro: “Uma Breve Declaração Sobre o Mistério da Iniquidade". Esse livro é considerado um dos mais caros princípios batistas, o princípio da liberdade religiosa e da consciência.
De acordo com os fiéis, as Igrejas Batistas adotam a forma de governo Congregacional Democrático, ou seja, são Igrejas autônomas e locais que relacionam-se umas com as outras pela mesma fé e ordem, de forma cooperativa e por laços fraternais.
A PIB (Primeira Igreja Batista) foi inaugurada na cidade de Salvador, Bahia em 1882 e possuía apenas cinco membros. O objetivo era voltado para a evangelização do Brasil.
São chamados de batistas por terem adotado o batismo por total imersão nas águas.
2. A Igreja Batista Monte Sinai
A instituição tem esse nome baseada no Monte Sinal, que se encontra no Deserto do Sinai, na península do mesmo nome. É o local onde há 3. 300 anos o povo libertado por Moisés, recém-saído da escravidão, no Egito, ficou de pé para ouvir a voz de Deus pro-clamando os Dez Mandamentos.
Esse ano (2013), a Igreja Batista completa 50 anos. Durante esses anos ela conseguiu seu patrimônio que seria o templo, onde acontecem os cultos, e mais dois andares a baixo onde se encontra os banheiros e as salas de reuniões. A igreja também possui uma quadra de esportes, que tem banheiros, arquibancadas e ao lado da quadra de esportes tem uma cantina.
Atendo-nos ao templo, que é onde ocorrem os cultos e é onde o grupo visitou. Sua or-ganização estrutural possui cinco filas de bancos voltados para o púlpito, que é onde o pastor se encontra auxiliado pelos diáconos, a esquerda de quem sentas nas fileiras de bancos ficam o local onde o coral da igreja canta e a direita fica os instrumentos e o Da-tashow.
A igreja possui uma diretoria, que é composta pelos membros da mesma, sua finalidade é auxiliar o pastor nas tarefas diárias. Ela é composta por Presidente, vice-presidente, dois secretários, tesoureiro, ministro de música, o administrador e o zelador. Estes compõem a diretoria da igreja. Possui também subdepartamentos, e cada um deles também tem sua própria diretoria. Exemplos: União de jovens, MCA, maternal, entre outras.
Os cultos acontecem as terças, quintas e domingos no horário de 19h30min às 21h e aos domingo também tem o culto pela parte da manhã que é das 8h30min às 11h. É um igreja tradicional portando não falam em línguas estranhas, o culto é de certa forma muito previsível pois segue uma regra de acontecimentos, e raramente betem palmas.
A regra dos acontecimentos presentes no culto da Igreja Batista Monte Sinai são respec-tivamente os seguintes:
Prelúdio: momento de entrada e se colocarem em reverência;
Boas Vindas: acolhimento das pessoas;
Breve Momento de Oração: pelas pessoas enfermas da igreja;
Avisos: feito pelo dirigente do culto;
Momento de Louvor: cantam;
Consagração dos dízimos e ofertas: momento no qual são dados os dez por cento do salário;
Oração: pelos dízimos e pela criança, pois essa ultima vai para uma sala onde vai ser apresentado a ela um culto específico;
Mensagem Bíblica: o que Deus quer falar com os fiéis;
Poslúdio: encerramento do culto.

3. As Práticas Curativas
O pastor da Denominação Batista afirmou que em sua igreja não há práticas curativas de fato, ou seja, não há imposição de mãos ou rituais em que ele ou outra pessoa da igreja se submetam ao processo de curar alguém. Porém ele acredita que a cura existe, explicando assim que ela se da a partir da fé de cada um. Acredita veemente que a fé move montanhas nota-se isso no trecho: “ Jesus respondeu: “É porque vocês não tem bastante fé. Eu garanto a vocês: Se vocês tiverem fé do tamanho de uma semente de mostarda, podem dizer a essa montanha: ‘vá daqui para lá’, e ela irá. E nada será impossível para vocês. ” ( Mateus, capítulo 17, versículo 20). Nesse caso, a fé de cada um move monta-nhas, essa fé é fortalecida através da oração, que promove a intimidade com Deus. A fé então poderia ser considerada, mesmo que indiretamente, como forma de cura tanto do corpo como do espírito.
A leitura da bíblia seria para auxiliar a fortificação da oração e consequentemente o grau de intimidade, com Deus, aumenta.
O jejum é considerado com prova da fé, ele é praticado para purificação da pessoa.
O batismo é visto como aceitação de Cristo na vida do indivíduo, como a partir dele entende-se que o indivíduo está limpo de seus pecados, a uma elevação da alma para um estágio de santificação, ou seja, a cura do espírito.
A cura de uma pessoa então, se da a partir de seis pontos:
A fé: que é responsável pela cura, seja ela do corpo ou da mente;
A oração: que irá fortalecer a fé;
A intimidade com Deus: que aumenta com as orações;
O jejum: considerado uma prova de fé;
A leitura da Bíblia Sagrada: que fortalece a fé, a oração e a intimidade com Deus;
O batismo: que cura o espírito.
A psicologia poderia atuar como uma pratica curativa, quando partimos do pressuposto que várias doenças físicas se dão na mente. Interferindo com sua teoria e métodos instrumentais, o psicólogo poderia dar a cura do corpo físico a partir da cura do psicológi-co, da mente.

Conclusão
A análise final do grupo, baseada nas entrevistas, do pastor Celson Varejão Nascimento, e nas observações notadas foi que, a Igreja Batista Monte Sinai pratica a cura. Como se trata de uma igreja tradicional, essa cura é feita de uma forma mais discreta, através da fé, da oração, leitura bíblica entre outras, o pastor mesmo citou em uma das entrevistas uma frase que se destacou: “muita oração, muito poder” (Celson Varejão Nascimento). A partir disso chegamos a um ponto em comum, a fé – poder citado na frase pelo pastor – é fortalecida pela oração que por sua vez é responsável pela cura.


Referências Bibliográficas

LAPLANTINE, F. , 1943. Aprender antropologia. Trad. : Chauvel, M. A. São Pau-lo:Brasiliense, 2003.
ALVES, P. C. ; RABELO, M. Saúde e doença: um olhar antropológico. Rio de Janeiro: Ed. Fiocruz, 1994. p. 57-71.
Site Batistas. com Convenção Batista Brasileira (link: http://batistas. com/index. php?option=com_content&view=frontpage&Itemid=2

Etnografia: Práticas curativas na Igreja Universal do Reino de Deus


Francine de Brito Santos
Lívia Melo Sassemburg

Resumo:
O objetivo do presente trabalho é apresentar a Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), situada na Reta da Penha, em Vitória, ES, contemplando diversos aspectos dela constituintes, como ambiente, observação dos fieis, dos pastores e dos obreiros. Focamos a nossa análise nas práticas curativas realizadas na igreja. Concluímos que a fé é determinante no processo curativo, mas, de certa forma, resguarda a igreja de uma possível falha dessas práticas, pois esta pode ser atribuída à falta de fé do crente.


Introdução:
A IURD é uma igreja evangélica neopentecostal, fundada em 1977, no Brasil, por Edir Macedo e Romildo Ribeiro Soares.
De acordo com o IBGE, a população de seguidores dessa instituição é de mais de 1, 8 milhões de fieis no Brasil e está presente em quase 200 países.
Assim como várias outras crenças, a IURD tem a preocupação de contemplar cada perí-odo da vida do fiel, oferecendo cultos com propósitos variados, organizando cada dia da semana para um tema.
A importância de estudos a respeito de uma crença que influencia um número tão grande de pessoas é indiscutível e fundamental.

Método:
As visitas à Igreja foram realizadas sempre às terças-feiras, no total de duas visitas, durante o culto das 11:00 am. O culto deste dia é específico para o tratamento de moléstias, tanto físicas quanto espirituais, e é chamado de “Culto de Libertação”.
O ambiente da igreja em questão pode ser descrito como um grande templo, sem jardim de frente e com uma escada larga, com aproximadamente 30 degraus, que leva a um salão amplo, sem divisões e repleto de cadeiras acolchoadas. O local não possui muitos ornamentos, além dos vitrais das janelas e dois grandes pôsteres, periodicamente trocados, de cada lado do altar. O altar não é grande, nem muito alto, e só é usado pelo pregador do culto quando a igreja encontra-se cheia, caso contrário, ele realiza o culto se colocando no mesmo nível dos fieis.  No altar costumam estar os objetos simbólicos que fazem parte do ritual. O ambiente também se destaca pela notável higiene.
Ritual, segundo Rabelo apud Alves e Minayo (1994), é um “espaço por excelência, em que os doentes são conduzidos a uma reorganização da sua experiência no mundo”.
Os cultos se iniciam com uma conversa informal do pregador, pastor ou bispo, que mescla assuntos do cotidiano dos frequentadores com passagens bíblicas. As falas são intercaladas por músicas evangélicas entoadas pelos crentes e acompanhadas por um piano e algumas vezes outros instrumentos. Depois, é a hora de se fazer uso de um “objeto de contato”, que é trocado periodicamente.
Durante as nossas visitas, presenciamos a utilização de um grande manto branco, que deveria simbolizar o manto de Jesus Cristo que, de acordo com uma passagem bíblica, ao ser “tocado de modo diferente” por uma mulher, permitiu que ela fosse curada de suas moléstias. O modo diferente quer dizer a existência de fé, de acreditar em Jesus para cura-la. Desse modo, aos fieis é sugerido tocar o manto com fé, que isso trará a graça buscada.
É interessante ressaltar, que tudo o que acontece durante o culto é baseado na palavra da bíblia, que é a base dos preceitos da igreja e deve ser seguida pelos fiéis.
As metáforas utilizadas pelos pastores através das passagens bíblicas, possuem uma Efi-cácia Simbólica que dá veracidade àquelas performances e reforça a fé dos fiéis.
O altar é considerado um lugar sagrado, onde segundo o pastor “ o mal não consegue alcançar”. Por isso, frequentemente os fiéis são convidados a passar pelo altar, evidenci-ando mais uma prática maniqueísta, das várias que constituem o culto.
Durante a fala do pregador, é enfatizado o caráter essencial da prática de sacrifícios, para provar a dimensão da fé do crente em Deus. Existem sacrifícios de vários tipos, como jejuns e qualquer penitência que seja significativa para o fiel, porém a igreja incentiva principalmente o sacrifício financeiro, em forma do pagamento do dízimo e de oferendas. Segundo palavras do pastor “É dando que se recebe”. Ou seja, para se conseguir uma graça é preciso se sacrificar.
Para a Igreja Universal, todos os problemas que aflingem a humanidade, tantos os físicos quanto os espirituais, são causados pelo Demônio, comumente referido como “inimigo”. Portanto, todo o ritual é direcionado a expulsar o Demônio do corpo da pessoa doente.
Nas nossas visitas observamos diversas performances onde o pastor e os demais fiéis impunham as mãos, uns sobre os outros, e faziam gestos de expulsão, representando a expulsão do Demônio, enquanto gritavam “sai, sai, sai. . . ”
Em outro momento de um dos cultos, o pastor pediu que os fiéis formassem uma fila e que cada um passasse a mão sobre a sua cabeça, com a justificativa de que “ o mal não atinge a cabeça de um justo”.
Durante nossa conversa com a sra. Maria (nome fictício) e com a sra. Joana (nome fictí-cio), ambas enfatizaram o poder da fé, que na concepção das duas, não conhece limites, podendo curar doenças que a medicina convencional considera incuráveis.
O pastor João (nome fictício) nos concedeu uma entrevista em formato de conversa informal, e inicialmente, disse ter se tornado pastor após receber um chamado de Deus, por intermédio do Espírito Santo, mas não explicou como foi essa experiência. Deixou claro que a IURD não impede de nenhuma forma que os seus fieis busquem tratamento na medicina convencional, apenas os orienta para não deixar de lado Deus e a sua infinita capacidade de realizar milagres.
Quando perguntado sobre o possível motivo da IURD atrair tantos fiéis, o pastor foi bastante realista e falou do fato dela possuir grande divulgação pela mídia, inclusive através de programas televisivos e de rádios, exercendo então grande influência sobre os seus telespectadores e ouvintes, exercendo o que ele mesmo chamou de “propaganda”.
Ele disse ainda, que as pessoas costumam buscar a igreja inicialmente com o objetivo de alcançar uma determinada graça.
Em Religião para ateus, de Alain de Botton (2011), é enfatizado o caráter rotineiro das religiões, com o objetivo de estruturar toda a vida do seguidor, de modo que ele possa ser contemplado em todas as dimensões de suas necessidades.
Também é interessante ressaltar que a cura pela fé não está em função da presença ou não dos aparatos religiosos e mesmo do pregador, se dando realmente em função da fé do crente. A Instituição funciona como guia para os ensinamentos de Deus.
O pastor relatou não haver nenhuma técnica corporal, ou comportamento pré-estabelecido para a prática do culto, sendo todos os movimentos e falas espontâneos.
A sra. Maria fez questão de nos contar, com certo orgulho, que foi a responsável pela conversão de grande parte da família. Realmente, é notável a presença de relativos frequentando o culto juntos, mas, mais interessante ainda é o sentimento de união que parece surgir entre fieis desconhecidos, mas que demonstram solidariedade em relação aos problemas trazidos por outros crentes no momento do culto.
Também é inegável que o sentimento de união marca os cultos, principalmente nos momentos mais emocionantes, quando nota-se como as reações dos companheiros in-fluencia e incentiva o comportamento de todos os presentes, de modo a torna-lo até mais ativo.

Conclusão
A Igreja Universal do Reino de Deus, possui um grande poder de perssuasão de seus fiéis, devido especialmente a dois fatores: o primeiro é a sua presença por todo o território brasileiro e em quase 200 países e também a sua influência através da mídia. Por esse motivo ela acaba se tornando uma opção de refúgio quando as pessoas estão passando por momentos difíceis. Isso nos leva ao segundo motivo, quando frequentam a igreja, devido a sua situação, o grande carisma e poder de convencimento do pastor as confortam, fazendo com que sigam os preceitos da igreja.
Quanto à questão da cura, ficou claro que o pastor funciona como um guia e não detém o poder de cura. A cura se dá exclusivamente pela fé em Deus. Desse modo, a responsabilidade da eficácia dos rituais recai somente sobre o fiel, ficando a igreja isenta de qualquer responsabilidade.
Essa fé do fiel, precisa ser provada constantemente através de sacrifícios, sendo os mais enfatizados o dízimo e as oferendas, estas requisitadas a cada culto. Esse sacrifício deve ser feito em detrimento de qualquer outra necessidade da pessoa, por exemplo, se o crente só possuir o dinheiro para pagar uma conta de luz, esse dinheiro deve ser oferecido à Igreja, evidenciando seu sacrifício. O pastor justificou esse sacrifício em um dos cultos contando casos de pessoas muito pobres que por meio dessas ofertas deram tudo o que tinham e foram recompensadas com uma vida próspera.

Referências Bibliograficas:
ALVES, PC. , and MINAYO, MCS. , org. Saúde e Doença: um olhar antropológico [online]. Rio de Janeiro: Editora FIOCRUZ. 1994, 174p ISBN 85-85676-07-8 Avaiable from SciELO Bookshttp://books. scielo. org.
De Botton, A. , 2011. Religião para ateus. Trad. : Paolozzi, V. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2011.
LAPLANTINE, F. , 1943. Aprender antropologia. Trad. : Chauvel, M. A. São Pau-lo:Brasiliense, 2003.

A oração como prática de cura

Camila Silveira Bergantini                
Isis Hoffmann Prates                
Mayara Ciciliotti da Silva


RESUMO

O presente artigo descreve a oração como prática curativa realizada por uma senhora pertencente a religião Luterana na zona rural da localidade de Itaguaçu - Espirito Santo. O objetivo do seguinte artigo é analisar, observar e compreender criticamente a eficácia sim-bólica e as repercussões do sistema de crença da prática curativa da benzeção. Conclui-se que o interesse, a fé, a disponibilidade e a confiança são os mantenedores de tal prática.

Vitória, 19 de abril de 2013
Universidade Federal do Espírito Santo
A curiosidade em adentrar num contexto singular de prática curativa, distinto da forma de cura médica legitimada no paradigma científico moderno, foi a motivação da busca por um meio alternativo de cura marginalizado por esse paradigma, mas que ainda voga como uma prática secular: a benzeção. A etnografia, portanto, se baseou em duas visitas a Dona Ita, senhora luterana de origem pomerana e residente da zona rural de Itaguaçu, Região Central Espírito-santense.
Dona Ita, aos 69 anos, ainda realiza seu trabalho, atendendo pessoas da localidade e de outras regiões, sendo reconhecida como uma figura dotada de autoridade, na medida em que seu discurso é mantido por aqueles que a procuram e, portanto, compartilham dos mesmos signos que a curadora. As expectativas daqueles que a procuram a autorizam a tornar-se competente. E é por meio da confiança que se estabelece o sistema de crença no qual faz viva essa prática.
Dona Ita afirma que o que pratica é oração, e não benzeção, e é por meio da primeira que se insere a cura.

"O que estou fazendo, eles falam em benzeção. Mas não é benzer. Estou orando, como uma pregação da igreja e tudo é palavra de Deus”.

A cura é provida pela oração que se da por meio da performance dotada de significados, símbolos e metáforas manipuladas em um contexto de ação, onde a eficácia simbólica é garantida, de forma que fora desse contexto ela não existirá.

“O ritual deriva sua eficácia e poder de sua performance e é na performance que o trabalho de transformação se realiza. ” (RABELO, 1998).

Em uma tarde, em meio ao ambiente bucólico, ocorreu o primeiro contato com Dona Ita que reside em uma casa de arquitetura tipicamente pomerana. Em sua varanda de tábuas destaca-se a velha certidão de batismo, emoldurada no alto da parede, que representa sua fé proferida. Características, estas, que compõe a cultura de uma família pomerana arraigada de valores do luteranismo. Esse fato sugere a preferência de Dona Ita pelo termo oração em detrimento do termo benzeção para designar o que faz, visto que este remete, muitas vezes, ao catolicismo.
Ainda neste contexto, foi feita uma ressalva acerca do desagrado de alguns pastores lutera-nos perante a prática de oração de Dona Ita. Porém ela enfatizou que aquilo que faz não se distingue muito daquilo pregado pelos pastores, e afirma: “É tudo palavra de Deus, não tem nada de errado”. Dadas essas circunstâncias, ela enfatiza a importância para si da religiosidade e da participação nos cultos, relatando incômodo quando não pode comparecer, pois para ela o discurso de pregação emitido na igreja é impulsionador do seu próprio discurso. Este, por sua vez, é dotado de uma conotação peculiar, onde a pregação do teólogo é traduzida para um formato condizente com o seu repertório cultural e sistema de crença. Sua interpretação religiosa organiza o discurso pregado na igreja em um todo coerente. E diz:

“Não gosto de perder nenhuma missa na igreja luterana. Quando o pastor tá lá em cima, no altar, naquele kanzel como nós fala em alemão, eu não gosto que nenhuma criança chora pra mim poder trazer no fundo do meu coração, pra mim pregar tudo na cabeça o que eu to precisando e muitas das palavras de Deus eu corrigi sozinha”

Contaminada pela religião luterana, Dona Ita é dependente do discurso do Pastor para a efetivação da sua prática de cura. No entanto a relação para qual a prática curativa deve sua eficácia é delimitada na medida em que a pratica depende da religião, mas não é totalmente condizente com o discurso religioso, sendo este ultimo independente dessa relação. É nessa diferenciação que o sistema de crença se destaca e se faz. É na alteridade que sua prática se mantem.
Sentada em um banco de madeira e em meio a uma conversa informal, a senhora luterana, durante a visita, relatou a necessidade de repassar seu trabalho para uma segunda pessoa devido a problemas cardíacos e, principalmente, à exaustão decorrente de seu trabalho, bem como a falta de tempo para os afazeres domésticos. No entanto a curadora relata que, ao comentar com os crentes sobre a possibilidade de abandonar sua prática, obteve a seguinte resposta: "Dona Ita, não faz isso com nós não. Vai morrer muita gente em nossas família”.
Devido a isso ela tenta conciliar os afazeres do lar, o descanso e o trabalho atendendo apenas dois dias da semana, nas terças e quartas feiras. Em meio a essas queixas, relatou também suas dificuldades financeiras, tendo em vista a ausência de fins lucrativos na execução de sua prática de cura. Diante desse fato, Dona Ita foi aconselhada por algumas pessoas a organizar os atendimentos por fichas e cobrar pelo seu trabalho. Porém a isso ela foi contrária, alegando que “É eu fazer isso e não aparece mais ninguém, tenho certeza. Eles são assim, eles quer ser ajudada, mas não se lembra de ajudar”.
Dona Ita, apesar de não cobrar pelo seu trabalho, aceita os mais diversos tipos doações: “Quem acha que eu mereço alguma coisa, me dá. . . Se é um sabonete, ou se é um lápis, um caderno ou se é um quilo de trigo, de açúcar. . . Daí aquilo é meu!”
O rito de oração feito por Dona Ita se baseia numa performance que transcende o ouvir de suas falas incisivas; é como se a fala se materializasse para agir nos corpos das pessoas que a procuram e prover a cura, de modo que a cura não está na palavra, mas sim no efeito que transcende a função sensorial do ouvir.
Dentre as suas performances estão os ritos de cura de arca aberta e espinhela caída, a primeira é medida por uma fita que vai do dedo mínimo até o cotovelo e provoca dor de cabeça, vômito, febre e diarreia. Já a segunda é medida do dedo médio até o cotovelo e provoca desânimo, tristeza e fraqueza. Em ambos os ritos deve-se fazer a devida medição nos dois braços, assim, quando as medidas obtidas forem iguais em ambos os braços tem-se o resultado negativo para arca aberta ou espinhela caída, dependendo do dedo medido. No entanto quando o comprimento obtido da medição dos dedos até o cotovelo no braço di-reito for distinto do esquerdo, tem-se o resultado positivo para um dos males.
Em caso de diagnóstico positivo para espinhela caída, a performance se baseia em uma oração em voz bem baixa, na qual Dona Ita utilizando a fita, a gira dando voltas sobre os ombros e a cabeça.
A oração é a seguinte: “Espinhela caída. Em nome de Jesus está curada. Com a graça de Deus eu ponho no lugar, os braços vão ficar juntinhos, um que nem o outro, e você vai se sentir bem”.
Após a oração, uma nova medida atesta o estado normal (negativo) se a medida do dedo médio até o cotovelo for a mesma em ambos os braços.
Depressão, cirrose, tiriça, pé destroncado, mau olhado e nervo destroncado, são outros males passíveis de tratamento e cura por Dona Ita. E diz ela, “Não tem nada mais que eu não olho. Como eu sei o que as pessoas têm? Eu conheço! Já tem oito anos que eu to trabalhando com isso e trinta e quatro anos de OASE . Eu sinto, mas custei chegar aqui. ”
A performance, no entanto, não está restrita a oração, Dona Ita também faz uso de remédios que segundo ela é “igual na farmácia” , podendo estes serem caseiros ou não. Quando o forem, o preparo, bem como os ingredientes, levam em conta a individualidade de cada sujeito e as receitas não são reveladas. Constata-se, assim, que o uso desses remédios, me-diante o desconhecimento do procedimento do seu preparo, é mantido pela fé: se não houver fé não há cura. Cura esta, que vai além de uma finalidade para a doença, mas que se mostra como provedora de um novo plano do individuo ver a vida, no qual aquele que apresenta a doença não se porta como doente. E esse portar-se diferente perante a doença, se mantém também pela fé, que, juntamente com as performances, promovem a eficácia simbólica da prática curativa em questão. É nesse sentido que as pessoas que chegam até ela, através de contatos interpessoais, mantêm uma relação de dependência com a curadora, já que diante dessa nova postura sobre a doença, o doente aprende a necessidade de uma contínua aliança pessoal a fim de garantir uma posição menos vulnerável no mundo. E disse Dona Ita, “Se você for fazer um remédio, você tem que saber qual remédio você pode dar. Eu mexo com vela também. Tem situação que eu não dou chá porque uns pode dar certo, outros pode matar. Pra cada coisa tem tudo certinho, depende da história de cada um, esse é o ponto certo. ”
O trabalho de Dona Ita, já desempenhado há oito anos, apesar de ter sido instruído por um senhor em São Roque durante uma curta temporada, é inerente a ela, visto que a palavra de Deus a é pertencente, e não a foi dada, portanto, é um dom. Como ela relatou:

“Eu não tive estudo, não estudei nem até o terceiro ano. Deus, primeiramente, que me deu a força. Deus me deu o dom e eu tinha essa natureza. Então muito das palavras de Deus eu corrigi da minha cabeça sozinha. Tudo, tudo sozinha. O homem foi quem me ensinou em São Roque, mas com três meses que eu estava estudando com ele, ele faleceu, deu derrame cerebral nele. ”

O trabalho com oração segundo relata a curadora, além de muito prazeroso e satisfatório, pode ser prejudicial à sua saúde na medida que seu corpo é afetado, o que lhe exige força e coragem. Ao transcender a cura, Dona Ita precisa vir a ser como o doente, acarretando, por consequência, uma afetação de si. Há a necessidade de limpar-se, afinal o corpo de quem cura também precisa ser curado. Segundo Dona Ita ressalta:

“Foi quase forte demais pra mim aquela depressão da mulher, mas diante de tudo que eu faço aqui, chega a noite eu tomo meu banho e tiro tudo de ruím. Esse pensamento você tem que guardar na sua cabeça: O que você fazer, tira de você . Se não você vai passar mal. Você tem que dar valor pro seu corpo. Tudo o que você ajuda nas pessoas vai em vo-cê. ”

CONCLUSÃO
Diante do interesse do curado e da curadora em alcançar a cura, ao compartilhar de um mesmo signo, ambos também compartilham de uma disponibilidade que da a eles uma prontidão para ação. É através da confiança emocional, transmitida nos gestos e no corpo, que os curados são sintonizados ao sistema de crença.  Essas crenças e expectativas fazem existir uma disponibilidade à uma afetação, que leva a curadora a se manter numa postura que não seja indiferente a confiança inspirada por ela. E diz: ”Quando eles pegam costume com você, onde é que você anda, um abraça aqui, outro na frente, outro no lado”.
Confiança, interesse e disponibilidade fazem vivo esse sistema de crença, mas é a fé a principal mantenedora de tal prática curativa. Seja a fé daqueles que a praticam e dos que a procuram. Daí a importância de se preservar tais práticas, mas que se preserve como siste-mas de crença e não somente se restrinja a elas um olhar folclórico, devendo-se considerar o sincretismo e a diversidade cultural e religiosa brasileira.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
RABELO, M. C. M. Saúde e Doença: Um olhar antropológico - Religião, Ritual e Cura. Editora Fiocruz.
MATURANA, Humberto e VARELA, Francisco. De máquinas y seres vivos. Autopoiesis la organización de lo vivo. Editora Universitária, 1973.
DESPRETD, Vinciane. O corpo com o qual nos importamos. Figuras da antropo-zoo-gênese. 2004.
LAPLANTINE, F. , 1943. Aprender antropologia. Trad. : Chauvel, M. A. São Pau-lo:Brasiliense, 2003.
MINAYO, M. Representações da cura no catolicismo popular. In: ALVES, P. C. ; RA-BELO, M. Saúde e doença: um olhar antropológico. Rio de Janeiro: Ed. Fiocruz, 1994. p. 57-71.

Práticas Curativas da Igreja em Cariacica

Juliana Nascimento Lucas
Ruhana Caliari Fabres

Resumo
O presente artigo descreve as crenças, o desenvolvimento de um culto, bem como rituais de cura de uma Igreja Evangélica, a qual não tem denominação. A pesquisa foi feita em Campo Grande, Cariacica, e foram realizadas duas entrevistas, uma com uma moça, membro da igreja, curada em um dos cultos realizados, e outra com um pastor que realizou a cura, mas que também passou por experiências próprias de cura. Para a moça foi dado o pseudônimo de Thaísa e para o pastor, o pseudônimo Gilson. As conclusões são que a partir do ritual, houve transformação das experiências tanto do pastor, como da moça, o que ocasionou a inserção dos mesmos no contexto da doença. A fé foi um importante elemento apontado pelos participantes como fundamental para ocorrência de cura.

Introdução
Os conceitos empregados na pesquisa foram o de ritual, o de performance e o de Eficácia Simbólica. O ritual tem um importante papel transformativo, “a partir da manipulação de símbolos em contextos fora do cotidiano, repleto de emoção, que induz os participantes a olharem de forma nova o universo ao redor e sua posição nesse universo” (Geertz, 1973; Turner, 1967; Tambiah, 1979; Kapferer, 1979). Isso quer dizer que a partir do ritual há uma transformação da forma, do enfoque, do modo como o participante percebe seu mundo ao redor, e em específico sobre seu lugar nesse mundo. Segundo Kapferer (1979a:6), "O ritual deriva sua eficácia e poder de sua performance e é na performance que o trabalho de transformação se realiza", ou seja, a eficiência, a efetividade, a realidade do ritual se dá na performance, e na performance, há a reorientação da percepção do doente em relação ao seu mundo, sua doença, suas experiências, e portanto há inserção do doente no contexto da experiência vivida por ele. Para esse mesmo autor, há dois elementos inerentes da performance: um que fala sobre “o arranjo do espaço e organização dos participantes e audiência no local da performance”, de modo que há um envolvimento do doente na organização de uma encenação que se dá durante o ritual, promovendo ao reorientar a encenação, a experiência do próprio participante; Outro que fala sobre o “uso dos meios - canto, dança, discurso formal, comédia, etc - através dos quais a ação é desenvolvida”, dito de outra forma, são usados meios como forma de envolvimento do participante, como por exemplo: imposição de mãos, o discurso do pastor no momento do ritual, os cantos, músicas, que possuem a função de abraçar o participante para que haja a Eficácia Simbólica – essa entendida aqui como a efetividade do uso desses meios para a efetivação do ritual.
A igreja abordada embora seja uma igreja evangélica, não possui denominação como as demais, por exemplo: Assembléia de Deus, Maranata, Batista, Igreja do Evangelho Quadrangular entre outras. Isso porque os integrantes desta instituição baseiam-se nas igrejas primitivas citadas na bíblia para nomeá-las. A nomeação das igrejas primitivas era de acordo com suas respectivas localidades, de modo que quando o apóstolo Paulo es-crevia cartas destinadas a estas, era sempre com o nome da cidade onde a igreja estava localizada. Isso faz com que a Igreja atual esteja mais próxima de sua origem.
Algumas crenças desse grupo são: o batismo nas águas, novo nascimento a partir do momento que o indivíduo se converte a Cristo; o batismo com o Espírito Santo, descida do Espírito Santo sobre a pessoa, que passa a ter dons, tais como falar em línguas es-tranhas, dom de profecia, de revelação, sonhos e interpretação dos mesmos e dom de curar; A manifestação do Espírito Santo; a Santa Ceia, que é uma ordenança de Cristo; E a base teórica e prática é a Bíblia.

O Culto
O culto é realizado em um salão de festas alugado, aos sábados à noite. Tem inicio às dezenove horas. Antes do culto, os participantes também conhecidos como membros, chegam um pouco mais cedo e oram em conjunto, geralmente sentados em grupo, em forma de roda. Essa oração é feita com os olhos fechados ou abertos, da forma como a pessoa se sentir melhor, mas sempre em reverência.
Outras reuniões são realizadas dias de semana, geralmente nas casas dos membros ou junções de dois grupos de Igrejas de locais diferentes – a igreja em Cariacica que se reúne, nesse dia específico com a Igreja em Vila Velha, por exemplo.
A organização do local é feita de modo que há dois conjuntos de fileiras de cadeiras, que são destinadas aos membros em geral e aos visitantes, com corredores no meio e nas laterais. De frente para essa organização de cadeiras, se posicionam os músicos, ins-trumentistas e as pessoas que cantam. Os instrumentos utilizados são: o teclado, a bateria e o violão.        
Dando início ao culto, o período de louvor se caracteriza por cantos alegres e tranqüilos e as letras das músicas são projetadas em uma das paredes, por um data show. Geralmente o período de louvor é conduzido por jovens, de maneira que a cada reunião, há diversificação do jovem que ministra.                                                                
Em um determinado momento, entre uma música e outra, um membro ou pastor, anuncia o período de ofertório e dízimos. Esses são entregues em uma espécie de caixa, repartida ao meio de modo que um lado é destinado às ofertas e o outro aos dízimos, que fica a frente em cima de um banco.                                                                
Logo após o término do período de louvor, a pessoa encarregada por dar avisos vai à frente, o faz e também apresenta os visitantes. Dando seguimento, a pregação é caracte-rizada pela leitura de uma parte da bíblia, e uma reflexão feita sobre ela, realizada geral-mente pelo pastor ou por membros responsáveis por isso, durante quarenta minutos em média. Cada semana, um membro ou pastor é responsável por esse papel. Em uma das visitas, logo após o período de pregação, o pastor, chamou a frente às pessoas que precisavam de oração para receber uma cura física ou espiritual. Chamou também as pessoas que estavam presentes para se achegarem e todos inclusive o pastor fizeram imposição de mãos sobre os doentes, orando simultaneamente. É importante ressaltar que todos também oraram por uma pessoa que não estava presente, um membro que estava internado no hospital, pois uma de suas crenças se baseia na onipresença de Deus, que pode alcançar o enfermo distante.

Uma Cura Específica
Após a visita ao local onde ocorre o culto, foi realizada uma pesquisa de um caso especí-fico de cura. Essa cura foi relatada por uma moça que foi curada em uma reunião desse grupo.
Ela teve o diagnóstico médico de escoliose, que segundo o dicionário, consiste em um distúrbio estrutural da coluna, no qual se pode observar um desalinhamento das vértebras, na tentativa do organismo de manter uma postura funcional. Pode ocorrer de duas formas: em forma de “S” ou em forma de “C”.  Essa patologia acarretava desconfortos ou até mesmo muitas dores de acordo com a postura corporal que era assumida por ela. Entretanto ela acreditava que esses sintomas eram comuns, ou seja, não se tratava de algo grave. Durante uma sessão de fisioterapia no joelho foi sugerido pela fisioterapeuta que ela também fizesse sessões de “RPG”, um método de tratamento para postura corporal, entre outros, para melhorar a sua postura, que segundo a terapeuta poderia estar comprometida por causa de sua estatura, que é alta. Na primeira sessão de “RPG” a fisioterapeuta visualizou o desvio vertebral que a Thaísa tinha e a partir de então foi constatado escoliose.
Em um culto logo depois da pregação, o pastor que havia pregado sobre cura, perguntou as pessoas presentes, o porquê que antigamente, na época de Cristo, ocorriam milagres, curas de doenças e deficiências e hoje em dia não ocorre mais tão freqüentemente. Depois de ter dado uma aula teórica, ele disse que daria uma aula prática. Sem saber da doença da moça, o pastor perguntou quem ali tinha escoliose. A moça ficou meio receosa, mas timidamente levantou a mão e chamou o pastor perto dela. Então, ela comunicou que ela tinha essa doença. O pastor, levou-a a frente e apresentou-a como sendo a pessoa que possuía a doença a qual ele havia perguntado. Para verificar se ela tinha realmente a doença, ele pediu que ela estendesse os braços e os juntasse de modo que encostasse as mãos, de modo que as mãos deveriam ficar juntas simetricamente. Porém, segundo a moça, ficou uma diferença considerável entre uma mão e outra. Então, o pastor comprovou que a moça tinha escoliose e pediu que todos impusessem as mãos sobre a ela e ele também impôs encostando a mão na cabeça dela. Todos oraram e a moça não sentiu nada na hora, mas segundo relatos de uma participante do grupo, as mãos foram lentamente se juntando e ficaram simetricamente juntas. Dessa maneira a moça foi curada, e a comprovação se deu quando se deitou para dormir de lado, e não sentiu as do-res que antes sentia.

O Pastor: Líder Espiritual
O pastor é aposentado, nascido em Laranja da Terra, Espírito Santo, atualmente vive em Viana, Espírito Santo. Tem aproximadamente setenta anos. Geralmente cura nas Igrejas, mas algumas pessoas também já foram e vão a casa dele pedir oração. Ele viaja muito para outros estados e países, não com o intuito específico de curar, mas as curas se realizam. O objetivo nas viagens é compartilhar experiências pessoais e do grupo ao qual pertence à Igreja.
Seu primeiro contato com o meio evangélico ocorreu por intermédio de sua esposa e filhos, os quais já eram integrantes deste. Segundo o relato do pastor, sua família aos domingos participava de reuniões na igreja, essa reunião é denominada E. B. D. – Escola Bíblica Dominical, encontro este que visa fazer estudos sobre a bíblia com o grupo pertencente à igreja. Sua organização consiste em divisão de grupos menores, turmas, porém o estudo é guiado por um único tema para toda a classe, exceto o estudo para cri-anças e adolescentes, cujo tema é direcionado para esta faixa etária. Era Gilson quem conduzia a família à igreja, entretanto não participava dos encontros, mas sempre era convidado por sua esposa a participar também. Após alguns convites ele decidiu por participar de uma aula. Nesse dia foi feito o pedido por parte do professor da turma, que cada um fizesse a leitura de um versículo bíblico do capitulo a ser escolhido por ele. Em-bora Gilson não tivesse uma bíblia consigo por se tratar de um visitante, ele pegou uma bíblia emprestada e leu o trecho que lhe foi encarregado a leitura, que se encontra no livro de João 1:12-“Contudo, aos que o receberam, aos que creram em seu nome, deu-lhes o direito de se tornarem filhos de Deus”-
Essa leitura lhe trouxe uma indagação: receber? Receber o que? Esse foi o seu questio-namento para o professor que conduzia a aula, porém o professor disse que não teria uma resposta para essa pergunta, e o direcionou a fazer esta pergunta a uma ‘’irmã’’ que já pertencia à igreja por muito tempo, e assim o fez. A resposta obtida foi que ele precisava receber a Cristo em sua vida, e assim ele aceitou Cristo em sua vida, ou seja, se converteu ao Cristianismo – termo utilizado por aqueles que entram nesta religião, cuja crença é de que Cristo é a porta de entrada para a mesma. Como já foi citado em parágrafos anteriores, àquele que entra nesta religião passa por uma mudança de hábitos, no qual é tido como simbologia do recebimento de uma nova vida por parte de Cristo. Todavia ele percebeu que essas mudanças não haviam sido alcançadas, o que lhe trouxe um incômodo.
Tempos depois ao retornar de uma viagem realizada para Bauru, São Paulo, Gilson teve uma experiência na qual recebeu o dom da cura. Ao chegar a sua casa, seu cão, devido o tempo sem perceber sua presença, se manteve muito agitado, e só se acalmou quando se aproximou de seu dono, que o recebeu com carinho. Foi nesse momento, que segundo o pastor, ele ouviu Deus falar com ele: “assim como esse cão é dependente do seu dono, assim é você comigo, portanto realizarei uma grande obra em sua vida e através dela, grande coisas serão realizadas”.  Foi a partir de então que ele experimentou a mudança em sua vida, recebendo essa autoridade da parte de Deus, isso porque ele estava subordinado a Cristo.
Segundo o Pastor, para o recebimento de cura, dois requisitos são necessários. Um refe-rente à fé, de forma que a pessoa para receber cura precisa de fé, e essa fé é dom de Deus, que dá as pessoas da forma como deseja. E o outro referente à Graça de Deus, de forma que a misericórdia de Deus promove a cura, da forma e no tempo que Ele desejar, para engrandecer e glorificar o Seu nome.
“Nenhuma pessoa merece cura, pois somos todos pecadores, mas Deus por sua bondade concede cura a quem Ele quiser, de acordo com a vontade dele. E a vontade dele é boa, porque Ele sabe o que é melhor para nós” – fala do pastor durante a entrevista.
Durante a entrevista, o pastor deu várias referências bíblicas sobre o que ele estava di-zendo: Sobre fé, que segundo ele, é um dom de Deus: Atos 3:16 – “Pela fé no nome de Jesus, o Nome curou este homem que vocês vêem e conhecem. A fé que vem por meio dele lhe deu esta saúde perfeita, como todos podem ver”;
Sobre Cura: Marcos 16:18 – “Pegarão em serpentes; e, se beberem algum veneno mortal, não lhes fará mal nenhum; imporão as mãos sobre os doentes, e estes ficarão curados”.
João 14:12 – “Digo a verdade: Aquele que crê em mim fará também as obras que tenho realizado. Fará coisas ainda maiores do que estas, porque eu estou indo para o Pai. ”
Experiências Pessoais do Pastor sobre Cura
Nos últimos anos, o pastor foi diagnosticado com câncer na próstata pela medicina, e recebeu essa notícia não de forma positiva porque mesmo tendo uma determinada visão decorrente da sua religiosidade, ele teve certa tristeza e desespero a princípio. Todavia ele não perdeu a sua fé e passou por rituais de oração juntamente com sua esposa em busca de uma cura divina. Segundo o seu relato, esse período foi marcado por fortes dores, o que acarretava noites mal dormidas e insônia. Em uma determinada noite, ele conseguiu dormir sem passar por momentos de dores intensas. Nessa mesma noite, ele teve um sonho, no qual ele fazia uma grande festa juntamente com sua esposa e essa festa tinha relação com sua doença. Ao acordar, ele se deu conta, de que essa tinha sido uma noite diferente das outras, e percebeu que a partir dessa experiência, ele estava curado. Novos exames médicos deram o diagnóstico de cura, mesmo sem o pastor ter iniciado o tratamento ou ter feito alguma cirurgia para remoção do câncer.
Outra doença da qual ele recebeu cura foi de problemas na carótida, ocasionados pelo estreitamento da artéria. Ele passou por cirurgias, mas depois de uma semana, o problema havia voltado. Os médicos disseram que não poderiam fazer mais nada em relação a isso, já que não era possível uma nova cirurgia. Porém novamente, através de sua fé e crença na ocorrência de um milagre, mesmo sem uma nova cirurgia ele foi curado.

Algumas Curas Realizadas
Segundo o pastor, ele já foi usado para que Deus realizasse várias curas. Em uma visita ao Hospital Santa Casa, três pessoas foram curadas, uma delas tinha câncer.
Outra manifestação da cura ocorreu com uma moça, que não tinha fé na existência de Deus e na mudança de vida proporcionada por Ele. Entretanto o Pastor Gilson lhe perguntou se ele poderia ter fé por ela. Sua resposta foi de que isso ficaria a seu critério, assim ele orou e teve fé por ela. Tempos depois quando a reencontrou ela lhe disse que sua a vida havia mudado por intermédio daquela oração. Segundo o pastor, essa cura ocorreu porque Deus é misericordioso, e devido a sua misericórdia para obter a cura a pessoa não precisa ser pertencente a religião cristã.

A Moça
A moça, a qual foi feita a entrevista tem 19 anos de idade, está se formando no Ensino Médio, mora em Campo, Grande Cariacica, tendo nascido em Vila Velha, Espírito Santo.
Segundo ela, quando tinha cinco anos, ela foi diagnosticada com hidrocefalia. O crânio já havia sido formado e, portanto não havia a possibilidade do crescimento da caixa craniana, característica decorrente dessa doença em recém-nascidos. Então, foi preciso que uma cirurgia fosse feita como modo de desobstrução do quarto ventrículo no cérebro, que como estava “entupido”, era impossível que o líquor pudesse circular até a medula espinhal como ocorre em uma pessoa normal. Nessa cirurgia, foi necessária a introdução de uma válvula, que liga o cérebro a região do tronco, para que o líquor se direcione a coluna vertebral. A cirurgia foi feita com relativo sucesso, e para a moça, foi por causa da sua fé em Deus que houve efetivação na cirurgia. Isso permitiu que ela tivesse uma vida normal até a adolescência quando novamente houve problemas relativos a essa antiga doença. Ela teve crises, com afetação nos olhos devido ao problema de ter alguma relação com o nervo que irriga a parte dos olhos, e foi preciso que ela fosse levada ao hospital, onde teve que fazer uma segunda cirurgia. Dessa vez seria muito complexo desobstruir a válvula, então foi possível, graças à tecnologia avançada, desobstruir o próprio ventrículo. A cirurgia ocorreu bem, porém nessa cirurgia, Thaísa foi contagiada com uma infecção, em um terço do cérebro. Não foi possível, por problemas burocráticos, que fosse tirado, sugado, por meio de métodos científicos da medicina, um pouco da infecção para análise e possível medicalização para solução do problema.
Isso fez com que a moça precisasse ficar vários dias no hospital, internada, “testando” medicamentos, que pudessem ser úteis na recuperação. Nesse momento, segundo Thaísa, ela estava relativamente bem, devido à fé e ao apoio do grupo ao qual ela pertencia, família e amigos. A moça estava convicta de que viva ou não, nada poderia separá-la do amor de Deus. Há base bíblica que fundamenta essa visão, que está em Romanos 8:35, 38, 39:
35-“Quem nos separará do amor de Cristo? Será tribulação, ou angústia, ou perseguição, ou fome, ou nudez, ou perigo, ou espada?”
38, 39-“Pois estou convencido de que nem morte nem vida, nem anjos nem principados, nem o presente nem o futuro, nem quaisquer poderes, nem altura nem profundidade, nem qualquer outra coisa na criação será capaz de nos separar do amor de Deus que está em Cristo Jesus, nosso Senhor”.
Além disso, houve um enorme apoio, sendo ela a pessoa que mais recebia visitas no hos-pital onde se encontrava. Nesse momento, a fé e a partilha da fé foram essenciais para que houvesse um modo de enfrentar aquele momento difícil para ela.
Após vários testes, um antibiótico finalmente proporcionou a constante diminuição da infecção, de modo que a moça pôde ser curada.
Um tempo depois, quando já havia se recuperado, em seu testemunho na Igreja sobre a cura que havia recebido, crido por ela ter sido benção de Deus, uma mulher visitante de outra Igreja (Assembléia de Deus) olhava constantemente para ela enquanto ela falava. Ela dizia sobre a bondade de Deus de ter feito com que o medicamento certo fosse dado para ela, para que houvesse a recuperação.
Após o término da reunião, essa mesma mulher foi dialogar com ela, e disse que o medicamento não era o certo, mas que Deus havia feito isso, a cura. Com isso, Thaísa teve certeza que havia sido uma benção. Saber de uma revelação é importante para o per-tencente dessa religião, pois esse passa a saber de um “fato” que antes não sabia e proporci-ona uma aproximação para com Aquele no qual ela crê: Cristo (e Trindade).

Conclusão e Considerações Finais
A relevância deste estudo para o saber psicológico consiste em analisar como a religião proporciona ou transforma a visão do indivíduo para com sua doença. Até que ponto a doença se torna um peso na vida destes, ou tem um aspecto de alivio por causa de suas crenças. Visto que quanto psicólogo, ao ouvir o discurso de um paciente pertencente a uma determinada religião, suas palavras não estarão isentas da influência que sua crença exerce sobre ele, ou até mesmo a visão que lhe é direcionada a ter.
Em situação que o indivíduo se encontra em quadro depressivo, com resistência ao tra-tamento, por não acreditar na melhora, pode ser identificada uma situação totalmente contraditória.
No caso específico da fé cristã, é dito que, os acontecimentos cotidianos são regidos pela vontade de Deus e Ele sabe o que é melhor para cada um, Seus planos possuem um propósito, mesmo que o indivíduo não identifique esses propósitos, passo a passo. A visão que se tem da doença vai mudando para uma aceitação ou em acreditar fortemente na cura em casos que para a medicina alopata não tem solução. Para os cristãos a vida não termina com a morte, para eles a morte é um rito de passagem, no qual aqueles que crê-em em Deus e aceitaram a Cristo como seu salvador, terão uma vida eterna com Ele no céu, juntamente com aqueles que nele habitam.
João 14:6-“Respondeu Jesus: Eu sou o caminho, e a verdade e a vida; ninguém vem ao Pai, se não por mim. ”
O que faz com aquele que segue essa filosofia de vida tenha uma visão diferente da morte.
Houve transformação na vida da moça, através da experiência, durante o ritual de modo que ela foi inserida no contexto da doença e da cura, não de modo a retornar simplesmente ao estado anterior de saúde, ou seja, antes da doença ter sido desenvolvida no corpo dela. Mas de forma que essa cura havia sido dada naquele contexto, no presente, fazendo a mesma prosseguir em frente com aquele acontecimento. Vale ressaltar a im-portância disso vista a confirmação, ou seja, a realidade de sua fé e crença.
No período de estadia no hospital, a moça passou por uma reorientação no seu modo de perceber a doença, a infecção que a atingia, de tal forma que teve modos de confronto positivos, se conformando por meio de sua fé, e pelo apoio que recebeu de seus familiares, amigos, e pessoas pertencentes ao mesmo grupo religioso, ou seja, as pessoas que tem crenças iguais a ela. Esse apoio parece ter valiosa importância visto que a crença pode ser e é coletiva e a coletividade a fortalece.
Também houve transformação na vida do pastor a partir da conversão e do recebimento do dom de cura, já que suas visões de mundo e de sua vida haviam sido alteradas. Além disso, a própria função dele do mundo havia mudado, visto que agora ele precisa se preocupar com os outros ao seu redor, ter fé para si próprio e inclusive para algumas pessoas, em alguns casos, para que a cura seja efetivada. Suas experiências pessoais de cura também têm importância significativa visto que ele vive o que passa a sociedade além de que fornece um suporte para a visão de mundo que ele defende.
A Eficácia Simbólica tem papel importante, a medida que fornece um modo específico para que haja cura. Imposição de mãos, o discurso do pastor e a oração são meios neces-sários durante a prática, pelos quais se dá a efetivação e a manifestação de cura.

Bibliografia:
ALVES, PC. , and MINAYO, MCS. , orgs. Saúde e doença: um olhar antropológico [online]. Rio de Janeiro: Editora FIOCRUZ, 1994. 174 p. ISBN 85-85676-07-8. Avai-lable from SciELO Books
LAPLANTINE, F. , 1943. Aprender antropologia. Trad. : Chauvel, M. A. São Pau-lo:Brasiliense, 2003.
MINAYO, M. Representações da cura no catolicismo popular. In: ALVES, P. C. ; RABELO, M. Saúde e doença: um olhar antropológico. Rio de Janeiro: Ed. Fiocruz, 1994. p. 57-71. Escoliose – www. dicionarioinformal. com/escoliose/
Citações da Bíblia - http://www. bibliaon. com/romanos_8/

A visão do Yoga como uma prática curativa

Ester S. Paganini, Júlia F. G. Pereira, Ramon P. Valim

Resumo:
O presente artigo descreve a pesquisa realizada sobre a prática de Shivam Yoga em um grupo que a pratica no campos da Universidade federal do Espírito Santo sendo consi-derada sua possível prática de cura sobre seus praticantes. Concluindo-se que a prática do yoga tem como um de seus resultados a prevenção, mas atua também como uma prática curativa.

Introdução:
   É bastante comum a procura de meios que possibilitem de diversas maneiras a libertação das tensões ocasionadas devido ao estresse do dia a dia nas sociedades urbanas. Um dos modos procurados para esse “alívio” no cotidiano é a prática de Yoga, cada vez mais realizada, sendo muitas vezes considerada como uma prática de prevenção e como um instrumento para o desenvolvimento para a melhora das relações do sujeito consigo mesmo, buscando o desenvolvimento pessoal e o autoconhecimento.
Surgindo na Índia, há mais de seis mil anos, o Yoga pode ser considerado como uma das primeiras manifestações culturais indiana. Ali iniciaram as primeiras experimentações que culminaram no conjunto de técnicas que formam o corpo da disciplina do Yoga.
A Palavra Yoga significa união entre o corpo físico e o mental. Sua prática induz ao profundo relaxamento, tranquilidade mental, concentração, clareza de pensamento e percepção interior. Juntamente com o corpo e o desenvolvimento da flexibilidade. E está intimamente relacionada com as práticas meditativas tanto do budismo quanto do Hin-duísmo.
A meditação pode ser definida como uma prática em que ocorre um esvaziamento dos pensamentos da mente, representando a abertura da mente para o divino, e esse esvaziamento da mente pode se dar por meio do enfoque da mente em um único objeto, como por exemplo em uma estátua religiosa, ou na própria respiração. A prática constante de meditação leva ao equilíbrio e harmonia em nível físico, energético, emocional, mental e espiritual. Trazendo assim harmonia também consigo e com o meio.
O Yoga caracteriza-se, mais que uma prática de exercícios aeróbicos e meditação, busca atender pessoas que buscam a melhoria na qualidade de vida, baseado no estudo da mente e do corpo. Tudo se compõe dentro da prática para uma busca de integração consigo mesmo e com meio, para a união do seu eu, com o seu superior, com o divino, e para o seu autoconhecimento.
 É importante lembrar que o Yoga não se limita à prática da meditação, há durante sua realização outras diversas etapas que a compõem e que dependem da linha de Yoga praticada. A etnografia pesquisou uma linha de Yoga no qual são realizadas dez práticas, que são chamados de sangas na nomenclatura dessa vertente pesquisada.
 A chamada Shivam Yoga, linha de Yoga pesquisada, foi idealizada pelo Mestre Arnaldo de Almeida, que propôs um resgate intuitivo do Yoga em uma sociedade antiga, de uma cultura matriarcal. O Yoga abrange também a cultura Hinduísta.
       Argumentando-se então que o Yoga pode ser considerada uma prática de prevenção de diversas situações, Já que noventa por cento da humanidade sofre de algum modo, física, mental ou espiritualmente, segundo B. K. S. Iyengar (2001). Nesse sentido, o Yoga pode ajudar a manter o corpo equilibrado, ajudando dessa forma a prevenir esse mal que acomete o corpo e que são bastante recorrentes na sociedade atual.
Sendo importante ressaltar que a prática de Yoga foi reconhecida no Brasil pelo Minis-tério da Saúde em 2013 como uma prática complementar de saúde. Caracterizando uma conscientização maior sobre os benefícios que o Yoga proporciona e que são tão essenciais para a saúde das pessoas.

Desenvolvimento
         Como já dito anteriormente, o Yoga se diverge em várias vertentes. A etnografia se propôs à pesquisar a prática de Shivam Yoga, de um grupo que se reúne para a prática dessa linha de Yoga, de segunda à sexta,  ás nove horas da manhã, sem cobrança de mensalidades ou qualquer ajuda de custos,  em um espaço aberto e em contato com a natureza, dentro do campus da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES) locali-zado em goiabeiras, em Vitória no Espírito Santo. A prática pode ser realizada por qualquer pessoa que tenha interesse, mesmo por pessoas que não possuem vinculo aca-dêmico com a universidade.
        Teve-se ciência sobre essa prática realizada na universidade, por meio de cartazes que se encontram afixados na parede de diversos edifícios dentro do campus. Para a prática do Yoga é necessário que o praticante leve consigo uma canga ou qualquer outra artifício que possibilite a sua movimentação do corpo sobre a grama do local, e esse aviso estava presente nos cartazes afixados, assim como o local e a hora da realização da prática.
        No dia em que foi feito a pesquisa à campo,  a chegada no local foi tranquila e fomos bem recebidos . A organização do local era feita de forma simples e casual, enfatizando seu propósito, que era este. De forma que os participantes se colocavam sen-tados sob suas cangas, tapetes ou colchonetes, da forma que preferiam e se sentissem confortáveis na medida em que chegavam, mas sempre de frente à pessoa que ministrava a prática e que estava posicionada de frente aos demais à uma certa distância. Sempre formando uma meia lua em volta do que guiava a prática de forma que fosse possível a visualização deste sobre todos os participantes e de todos os participantes sobre ele.  Era necessário, durante a prática que se mantivesse um silêncio dos participantes ao modo que apenas a voz do ministrante, que falava e descrevia detalhadamente o movimento a ser realizado dando assistência contínua aos participantes sempre que possuíam alguma dú-vida ou dificuldade.
         Pode-se observar durante a prática que essa linha de Yoga, não da muito enfoque à meditação, como se foi esperado pelos pesquisadores. A vertente enfatiza os movimentos ou poses, que foram descritas com um grau de dificuldade muito grande, mas que para os que praticam constantemente esse grau diminui.
        O instrutor descrevia cada movimento, que iria ser praticado, falando detalhes sobre a história desse movimento, quem foi o seu idealizador, e quais os seus benefícios. Esses movimentos são feitos de acordo com cada etapa existente. São dez etapas realizadas na prática de Shivam Yoga, essas etapas são chamadas de sangas.
        A primeira etapa a ser realizada durante a prática são estados de concentração mental e de meditação chamada no primeiro momento de dharana, em um segundo momento de dhiyana. Em seguida, acontece o denominado puja que representaria um momento de homenagem e gratidão a tudo que se é grato, e nesse tudo se inclui uma gratidão ao local que se tem à disposição para a prática, ao grupo que a realiza cotidianamente, ao mestre Arnaldo de Almeida que foi o idealizador do Shivam Yoga e também ao Deus da destruição, que nessa prática de yoga, faz referencia a esse Deus, Shivam, o Deus da destruição. A conotação que esse deus tem dentro desse tipo de Yoga e no sentido de destruir tudo para que seja construído algo novo. E esse também é um momento de transmissão e obtenção de energias, e essa sanga ocorre duas vezes durante toda a prática do Shivam Yoga.
Logo após ocorrem os exercios de respiração, chamado pranayama e em seguida as cha-mas asanas, que são os exercício psicofísicos, conhecido popularmente como as várias posições do Yoga. São feitas diversas séries de asanas durante a prática e cada uma delas possiu um benefício específico, fazendo com que se tenha consciência das tensões pre-sentes no corpo e também possibilita a libertação dessas tensões.  Acontecem então os Kryas que são os exercícios de purificação para retirada de diversas toxinas e, em seguida os exercícios de energização que acontece à partir da contração do corpo físico, chamado de bandhas. Feito isso acontecem os três ultimos sangas da prática, o mudhás que são os gestos feitos com as mãos para fechamento e administração do circuito energético, e depois ocorre o chamado yoganidrá, que é um exercício de relaxamento e autoconheci-mento. E então acontecem o chamado mantra que são as cantorias que podem ou não acontecer no final da prática de Shivam Yoga.
Para se constituir a etnografia, foram entrevistadas duas pessoas, praticantes de Yoga e ambas as estudantes de Psicologia da Universidade Federal do Espírito Santo. A primeira pessoa nos deu as primeiras informações do assunto pesquisado. A segunda nos trouxe mais informações do Shivam Yoga. Esse nos disse que, em 2010, o departamento de Psicologia da Universidade Federal do Espírito Santo, ofertava uma matéria chamada “Psicoterapia Corporal” , nessa matéria ele teve de experimentar varias atividades relacionadas com o corpo, como por exemplo a biodança nisso um amigo lhe chamou para participar da pratica de Yoga.  Conhecendo assim o Yoga e gostando muito da experiência que essa prática lhe proporciono, o entrevistado então passou boa parte do ano de 2012 estudando o Shivam Yoga para se formar como instrutor.
Durante esse treinamento, ele fazia a pratica duas vezes por semana.  Esse praticante nos disse que o Yoga faz parte de sua vida, quando passa muito tempo sem participar das praticas ele sente muita falta. Disse-nos também que o Yoga não se restringe as praticas, mas Yoga é modo de pensar e de agir no cotidiano, alertando também para o fato de que o Yoga não pode ser considerado como uma religião, apesar de muitas vezes pensar-se o contrário. Ao questionar o entrevistado se o Yoga seria uma prática curativa, ele responde que pode ser sim considerada como tal, já que várias pessoas a procuram para buscar essa interação consigo e com o meio, motivadas a melhorar o estresse, que é bem comum nas sociedades de hoje, buscando o relaxamento, a meditação com a melhora do seu campo espiritual e equilíbrio físico. Uma pessoa consegue interagir bem com o meio onde vive tem uma saúde potencializada. Desse modo, o Yoga trás uma melhora em nível espiritual e físico agindo tanto como uma prática preventiva como uma prática curativa.
  Em uma pergunta, foi-lhe indagado se qualquer um poderia participar da praticas de Yoga , e a resposta dele foi positiva, dizendo que geralmente as pessoas apreciam bastante a prática desde o primeiro contato com ela, ao ponto de apaixonar- se pelo Yoga. Mas que também não é possível afirmar que isso acontece com todas as pessoas, pode-se acontecer o contrário também. Porque o Yoga exige questões físicas, e muitas vezes a pessoa não esta disposta a fazer um esforço para por exemplo alcançar o equilíbrio para conseguir chegar com êxito as posições propostas pelo exercício, ele diz que ou a pessoa se apaixona, ou foge, por não conseguir êxito na pratica. Percebemos então que os indivíduos praticantes do Yoga não fazem questão de se diferenciar perante os que não a praticam, não há nenhuma característica marcante que o distingue dos demais nesse contexto.
         Encontra-se um apoio para essa contextualização a respeito da prática de Yoga e o benefício proporcionado por seus praticantes, tanto no contexto espiritual mas também na manutenção do equilíbrio de uma saúde física e mental, na teoria de Carl Gustav Jung a noção de numen, que é definida e entendida como um agente espiritual de fora do indivíduo, e é relativo à Deus, qualificando assim a experiência sagrada como um possível potencial terapêutico. Entendendo-se que a prática contínua de Yoga possibilita essa experiência sagrada, que é caracterizada por esse conceito de numen da teoria junguiana , e é fundamental para uma possibilidade de cura, sendo ela física ou espiritual.
   Durante a realização da pesquisa, foi encontrado um artigo de revisão intitulado “ Algumas considerações sobre a utilização de modalidades terapêuticas não tradicionais pelo enfermeiro na assistência de enfermagem psiquiátrica” , publicado na revista Latino- Americano de Enfermagem em 2005, que condiz bastante com o que foi argumentado para a realização da pesquisa sobre o Shivam Yoga. Sendo concluído nesse artigo de revisão que após a realização de uma pesquisa sobre o acompanhamento terapêutico em que o enfermeiro que acompanha o paciente psiquiátrico na realidade de sua rotina diária, ao inserir a prática de Yoga juntamente com o plano terapêutico é possível permitir a melhora da memória, a redução da tensão emocional, da depressão, da ansiedade e da irritabilidade. Promovendo também o relaxamento e um maior sentimento de auto-domínio desse paciente.
Essa pesquisa tem relevância para a formação dos pesquisadores no curso de Psicologia, pois é importante conhecer práticas de possíveis pessoas que vão lidar durante o exercício da profissão.

Considerações Finais:
Através dessa pesquisa incentivada pela disciplina de antropologia, foi possível se conhecer melhor a prática do Yoga, e a sua contribuição para a cura do individuo. Uma cura que atinge o sujeito tanto do âmbito físico e espiritual, além de ser uma prática que vai além da cura, mas que abrange também a questão da prevenção da doença, frisando a melhoria da interação do sujeito com sua teia de relações, o que inclui a interação consigo mesmo, e com a sua representação do divino.
Inicialmente, a pesquisa objetivava a concluir que a prática de Yoga resultava em uma prática que proporcionava a cura física e espiritual do indivíduo, a partir do momento que proporciona um equilíbrio de uma saúde física e mental. Entretanto, a partir da análise das entrevistas realizadas, percebeu-se que a prática de Yoga proporciona sim essa manutenção da saúde mas que esse não é o objetivo principal dessa prática, como se pensamento à princípio. Mas pode-se dizer que a prática do Yoga também é procurada para tanto para essa manutenção da saúde, quanto para uma libertação das tensões e o estresse causado pela rotina cansativa do dia a dia.
A partir dessa análise das entrevistas e da pesquisa de campo realizada pelo grupo, conclui-se que a prática de Yoga proporciona.


Referências Bibliográficas:
ALVES, P. C. ; RABELO, M. Saúde e doença: um olhar antropológico. Rio de Janeiro: Ed. Fiocruz, 1994. p. 57-71.
LAPLANTINE, F. , 1943. Aprender antropologia. Trad. : Chauvel, M. A. São Pau-lo:Brasiliense, 2003.
 “Estudos sobre a Yoga” - Marcos Rojo Rodrigues
Sites:
http://www. shivayoga. com. br/
Quadrant: O Jornal da Fundação C. G.  Jung
http://www. cgjungny. org/q/p/q35n2. html

Subjetividade e Cura no Kardecismo

                                      
Ana Carla Pantoja Gomes
Juliana Pereira Rodrigues
Tarcila Reuter Barros Mota
            

Resumo
Este artigo descreve as práticas curativas na doutrina espírita kardecista. Foram entrevistados dois frequentadores da Fraternidade Espírita de Evangelização Cristã (FEEC) em Bento Ferreira, Vitória. Por fim podemos concluir que a cura para o espiri-tismo não advém apenas do tratamento ministrado no centro, mas também de uma mudança de hábitos de vida e de acordo com a enfermidade, de um acompanhamento da medicina convencional.

Introdução
O espiritismo kardecista é definido como “o conjunto de princípios e leis, revelados pelos Espíritos Superiores, contidos nas obras de Allan Kardec que constituem a Codificação Espírita: O Livro dos Espíritos, O Livro dos Médiuns, O Evangelho segundo o Espiritismo, O Céu e o Inferno e A Gênese. ” ¹ Através de seus fundamentos ajuda os pacientes em seu processo de cura de algo que o aflige, para tanto realiza práticas com o fim de “purificação do espírito”, dentre estas práticas podem ser citados a prece, o passe e a sessão de tratamento.
Logo de início, é precisado que o espiritismo não possui ritual nem sacerdotes, sua prática é realizada com simplicidade e também não “usa em suas reuniões e em suas práticas: altares, imagens, andores, velas, procissões, sacramentos, concessões de indulgência, paramentos, bebidas alcoólicas ou alucinógenas, incenso, fumo, talismãs, amuletos, horóscopos, cartomancia, pirâmides, cristais ou quaisquer outros objetos, rituais ou formas de culto exterior. ” ². Porém utilizando os conceitos de ritual e performance em-pregados no livro “Saúde e doença um olhar antropológico”, pode se entender que o espiritismo kardecista possui sim ritual, não da forma definida por eles. Como exemplos podem ser citados as preces que sempre ocorrem ao início e final dos encontros, e outro exemplo seria o fato de que no momento em que as preces são realizadas as luzes devem ser apagadas para que as energias possam fluir melhor pelo ambiente.
Voltando aos termos próprios da religião espírita kardecista que são os conceitos de prece, passe e a sessão de tratamento. A prece é uma oração realizada como ato de adoração a Deus, pedido de auxílio da espiritualidade, bem como agradecimento, ocorrendo sempre para abrir o encontro e para finalizá-lo. O passe ocorre em uma sala separada, qualquer pessoa que vai ao centro em busca de ajuda, poderá recebê-lo. Este consiste na transmissão conjunta de fluidos magnéticos - “são o veículo do pensamento dos Espíritos, tanto encarnados quanto desencarnados” ³ - tanto fluidos dos médiuns que realizam o passe como da própria pessoa que o está recebendo, ocorrendo assim uma troca de energia benéfica entre a pessoa que doa a energia e de quem a recebe. A sessão de tratamento nesta casa em estudo, ocorre colocando o paciente que deseja receber o tratamento deitado em uma maca e através de alguns médiuns é realizada uma troca de energias por meio da imposição das mãos sobre o paciente, antes deste processo ocorre uma escuta ao paciente a fim de saber quais são seus males, com intuito de orientação espiritual.
O grupo estudado pertence a religião espírita, vinculado a Federação dos Espíritas do Estado do Espírito Santo, especificamente foram realizadas duas entrevistas com mem-bros da Fraternidade Espírita de Evangelização Cristã (FEEC) em Vitória. A partir destas entrevistas foi possível compreender como se dá o processo curativo para os kardecistas, de que forma e que preceitos são utilizados para sua realização. Além disso, foi possível, em uma das entrevistas, ter uma visão de alguém que não pertencia à religião e ao procurar ajuda, encontrou tratamento para seus males.
Primeiramente é necessário delimitar quais são os princípios básicos em que o espiritismo kardecista se apoia e de que conceitos se utilizam para a prática de sua religião. O espiritismo é conceituado como um conjunto de princípios e leis que foram revelados pelos Espíritos Superiores, sustentado pelo tripé da religião, filosofia e ciência, que estão presentes nas obras de Allan Kardec (O Livro dos Espíritos, O Livro dos Médiuns, O Evangelho segundo o Espiritismo, O Céu e o Inferno e A Gênese. ) Para melhor entendimento é necessário conceituar também espírito - “Os Espíritos são os seres inteligentes da criação. [. . . ] Evoluem, intelectual e moralmente, passando de uma ordem inferior para outra mais elevada, até a perfeição, onde gozam de inalterável felicidade. ”². Aqueles que permitem a comunicação entre os espíritos e os homens são os médiuns, porém a pratica mediúnica só pode ser realizada seguindo os princípios da Doutrina Espírita e dentro da moral cristã, sem aceitar qualquer tipo de recompensa pelas suas atividades, caso contrário romperia com a moral do Evangelho de “Dai de graça o que de graça recebestes”. Os kardecistas crêem no Deus imutável, único, onipresente, justo e bom, todo o universo é sua criação. Para eles, Jesus serve de guia e modelo para a humanidade, sua moral contida no evangelho atua como roteiro de evolução para todos os homens.

Desenvolvimento
Foi realizada uma entrevista com “Aline” uma freqüentadora da Fraternidade Espírita de Evangelização Cristã (FEEC), a partir dessa foi possível buscar esclarecimento de como o processo de cura é entendido dentro do grupo espírita kardecista. Entende-se que os males que acometem o homem são fruto das escolhas feitas pelo mesmo, processo este que é efetuado pela Lei de Causa e Efeito – “É uma lei criada por Deus e que dispõe que o homem tem o livre-arbítrio para agir, mas responde pelas conseqüências de suas ações. O que fazemos de mal e de bem retornará para nós nessa mesma vida ou em existência posteriores. ” ², por isso a cura não se dá mediante apenas o tratamento realizado no Centro, deve ocorrer paralelamente a um acompanhamento médico convencional e com mudanças de hábitos e formas de pensar, dependendo de cada caso. Para auxiliar estes tratamentos são realizadas reuniões que são destinadas diretamente àqueles que estejam com alguma forma de enfermidade, de origem física, psíquica e espiritual. A cura em si, nesta doutrina é considerada algo complexo, por isso devem ser realizados tratamentos em várias esferas, não só na religiosa. O tratamento religioso para obter a cura, baseia-se no fato de que a origem dos nossos males está na nossa condição moral e espiritual, neste caso o paciente obteria a cura pelo tratamento espiritual.
Devido ao fato dos espíritas kardecistas crerem na reencarnação - “Os Espíritos reencarnam tantas vezes quantas forem necessárias ao seu aprimoramento. O objetivo da reencarnação é a evolução. ” ² , por isso a pessoa deve sempre se aprimorar visando à evolução do espírito, para assim diminuir os males que possam vir a acometê-lo. Através da aprendizagem da doutrina é possível concluir que as doenças são engendradas pelo espírito, embora se manifestem de forma física no corpo, pois o mesmo, segundo a doutrina, não possui hábitos e emoções, esses são atribuídos ao espírito. Por isso sempre há uma grande parcela de conteúdo psíquico- espiritual envolvido no aparecimento das doenças nos humanos.
 Como exemplos de reflexo das emoções no corpo carnal têm: o resfriado que escorre quando o corpo não chora; a dor de garganta que entope quando não é possível comunicar as aflições; o estômago arde quando as raivas não conseguem sair; a dor de cabeça deprime quando as duvidas aumentam; o coração desiste quando o sentido da vida parece terminar; a alergia aparece quando o perfeccionismo fica intolerável; as unhas quebram quando as defesas ficam ameaçadas; a pressão sobe quando o medo aprisiona; o peito aperta quando o orgulho escraviza. Nesses casos, como em outros, a “doença” está no espírito e não no corpo, podendo ser curada apenas com a mudança de hábitos e pensamentos do próprio indivíduo, através de um acompanhamento espiritual em uma casa espírita que o auxilie nessas mudanças. Os remédios convencionais, em alguns casos, são necessários para um alívio imediato de algum incômodo e tratamento da doença do corpo físico e não para tratamento do corpo espiritual.
Para realizar o tratamento das doenças é recomendado ao paciente a realização da flui-doterapia, que é um conjunto de práticas que tem por objetivo a positivação da pessoa utilizando-se de uma boa leitura, boa música, um policiamento para garantir que suas ações sejam menos carregadas negativamente. Juntamente a essa práticas é recomendada a leitura do Evangelho e o hábito da oração, ambos funcionando como roteiro para as práticas positivas, através do conhecimento que transmitem. Além dessa parte que deve ser realizada pelo próprio paciente há ainda outra parte da fluidoterapia realizada no próprio Centro, utilizando os passes magnéticos e a água fluidificada, o objetivo deste tratamento é reequilibrar as energias do paciente. Por fim, entende-se que a situação frágil na qual o ser humano fica ao ser acometido por uma doença pode ajudar no desenvolvimento de atitudes e qualidades positivas como a humildade, solidariedade, altruísmo, que colaboram para a melhor vivencia do homem.
Algumas doenças do espírito, refletidas no corpo, podem ser curadas no espírito, o que resulta imediatamente na melhoria do corpo. Porém, às vezes, é necessário que o corpo desenvolva uma enfermidade e até mesmo morra por ela, para que o espírito seja curado de algo.
A segunda entrevista foi realizada com um casal que iram ser nomeados de “João” e “Maria”. Ambos atualmente são freqüentadores da Fraternidade Espírita de Evangeliza-ção Cristã (FEEC), e relatam como e por que chegaram ao Centro e o que houve de mudança em suas vidas após aderirem o espiritismo kardecista em sua vida.
A história de “João” no espiritismo kardecista começa em outubro de 2012, quando sentiu grande necessidade de voltar a ter fé em Deus, já que havia se tornado um tanto cético quanto à religiosidade. Passou por várias igrejas, mas em nenhuma delas se sentiu confortável, pois em sua maioria, era pregado que ele era culpado e que seria julgado pelos seus pecados, o que o angustiava muito e piorava o seu estado, esse sentimento de culpa o incomodava profundamente.
Seus maiores problemas surgiram em 2008, quando desenvolveu síndrome do pânico e outros transtornos emocionais, devido a um grande trauma pelo qual passou. A partir desse momento passou a ser acompanhado por um psiquiatra e um psicólogo, e por eles foi proibido a continuar trabalhando, pois a ida ao trabalho dificultaria e tornaria quase impossível a sua melhora naquele momento, o que resultou em uma aposentadoria um ano antes do programado. Nessa época “João” era casado com uma mulher alcóolatra, o que dificultava seu tratamento e sua melhora, somado a outras diferenças resultaram no divórcio. Em 2010 casou-se com “Maria”, com a qual permanece casado. Em 2012, quando foi à procura do Centro com o intuito de se religar á sua fé, sua companheira foi o acompanhou, pois, segundo ele, gostam de fazer as coisas juntos, um apóia o outro em suas decisões e necessidades, um grande exemplo de companheirismo. Sobre sua procura ao Centro e sobre a primeira experiência no local “João” relata:

“Em uma segunda-feira resolvi que naquele dia iria a um Centro Espírita, já havia tentado ir antes, mas sempre havia algo que atrapalhava, então naquele dia decidi que iria de qualquer forma. Liguei para a Federação Espírita do Espírito Santo (FEEES) e perguntei aonde teria uma casa espírita próxima a minha casa. Informaram-me que naquele dia havia reunião na Fraternidade Espírita de Evangelização Cristã (FEEC) próximo à minha casa (Bento Ferreira, Vitória, ES) e me informaram que a reunião seria às 19h30min. Como eu e minha esposa somos muito companheiros, ela resolveu me acompanhar. Ao chegar descobrimos que naquele dia , assim como em todas as segundas-feiras, era dia de tratamento. Escutamos o que o dirigente da sessão falou e fomos encaminhados para o local do tratamento que ocorre separado dos demais presentes. Era uma sala que estava em penumbra e tinha uma maca a qual me indicaram para deitar, nesta sala haviam algumas pessoas em estado de prece. Quando algumas dessas pessoas impuseram as mãos sob meu corpo (sem tocá-lo), senti um nó na minha garganta, como se eu fosse sufocar, foi um incomodo tão grande que me deu uma vontade quase que incontrolável de sair de lá, porém estava muito interessado até onde aquilo iria e permaneci ali até o final do trabalho. Ao final do passe me senti muito bem, como há muito tempo não me sentia. Tanto eu, como minha esposa, estamos em tratamento até hoje e melhoramos a cada dia. Vamos à Casa todos os dias que há alguma reunião, tanto as reuniões públicas, como de estudo, de tratamento, de desobsessão e mediúnicas. Não conseguimos faltar nenhuma, precisamos disso, é um tratamento complementar ao médico e psicológico. ”
Após a primeira visita ao Centro, sentiu como se algo houvesse mudado nele, sentiu que sua fé havia voltado e que agora estava fortemente ligado a Deus. No espiritismo encon-trou respostas e explicações que necessitava, mas que não havia encontrado em outras religiões. Segundo ele, conversar com alguém sobre esse assunto era muito difícil, e se fosse há algum tempo atrás, não teria aceitado participar dessa conversa, principalmente pelo sentimento de culpa que o martirizava, porém hoje ele não se sente mais assim, pois se libertou deste sentimento que o atormentava quando aprendeu que ele não era culpado, que as coisas acontecem e isso o permitiu melhorar e de fato se tratar. A partir da ida ao centro, ele e a esposa passaram a praticar o Evangelho no lar com os filhos nos dias em que não tem nenhum trabalho no Centro. O Evangelho no lar consiste na leitura de um capítulo do evangelho segundo o espiritismo, uma discussão sobre ele, e uma prece de encerramento, assim como no início. Depois de começarem a realizar essas práticas sentiram como se o ambiente tivesse ficado mais leve, tranqüilo, a relação familiar me-lhorou.
No início de 2013, sua mãe sofreu um acidente. “João” contou que seus pais moram em São José do Calçado e deu um relato sobre o que sentia em relação ao local:
“Ir lá me incomodava muito, não me sentia bem indo lá, há anos não ia, sempre trazia meus pais para cá (Vitória). Tem alguma coisa lá, não sei o que é, só sei que me faz muito mal, e a necessidade de ir até lá para cuidar da minha mãe me atormentava muito. Como eu iria até lá dessa forma? Então resolvi conversar com Deus e pedir ajudar. Pedi para ele me curar, pois eu precisava cuidar da minha mãe, e ele me escutou e atendeu, me curou! A partir daquele momento eu estava curado! Fui até lá, fiquei um bom tempo com meus pais e foi ótimo! O mal estar que sempre me incomodou havia acabado e agradeço a Deus por ter me escutado. ”
Enquanto a entrevista estava sendo realizada em uma padaria próxima a sua casa, uma moto foi ligada na rua fazendo um enorme barulho. Quando isso aconteceu ele teve um sobressalto visível e fez uma expressão de pânico e medo. Isso foi um sintoma da sua síndrome do pânico, que mesmo tratada e estando de uma forma que não o impede de viver socialmente ainda o incomoda e o aflige muito. Sobre o pânico nos disse:
“A síndrome do pânico é terrível. É uma batalha enorme diária. Os únicos lugares que fico mais tranqüilo são minha casa e a Casa Espírita. Estar aqui conversando com vocês é difícil, qualquer barulho ou movimentação mexe muito comigo, me incomoda e tenho que me controlar muito para me manter calmo e continuar aqui. A 3ª Ponte (Ponte que faz a ligação entre os municípios de Vitória e Vila Velha) para mim é terrível. É muito difícil passar por lá. O desconforto é imenso, evito ter que passar por lá”
A entrevista correu de forma tranqüila e agradável. Ao falar sobre o centro espírita e a doutrina kardecista a tranqüilidade do entrevistado era notória, em todos os momentos ele disse que a doutrina o ajudou muito, que hoje ele é mais feliz, e a mudança em seus hábitos e em sua vida é indiscutível, sua compreensão sobre a vida, sobre seu sentido mudaram, e hoje ele vive dia após dia, aproveitando o que tem, agradecendo tudo que aparece em sua vida, pois tudo tem um motivo, e a ligação e a relação que tem com sua esposa são fundamentais para sua alegria, ela é um complemento dele e vice versa, os dois estão juntos nessa caminhada para vencer os obstáculos e seguir em frente.

Conclusão
Primeiramente podemos concluir que a cura e o que ela significa é algo subjetivo e complexo. A amplitude da cura dificulta o estabelecimento de um padrão. O significado da cura varia de acordo com o indivíduo, para cada um a cura representa algo diferente, como pode ser atingida de forma diferente. Para o nosso entrevistado, houve cura, uma cura parcial no âmbito de suas angustias e sua doença, e completa em relação a um mal estar que o impedia de ir até uma cidade, cura essa que veio através da religião, de seus pensamentos, de seus hábitos que mudaram após conhecer o espiritismo, associados ao tratamento médico convencional. A cura para ele também é diária, todos os dias seus anseios e suas agonias são curadas ou não, a ida ao centro faz parte dessa cura, mas é clara a necessidade de um tratamento médico convencional paralelo ao espiritual. O espiritismo faz a separação do corpo físico do corpo espiritual (perispirito), e a cura pode se dar em um e não no outro, ou em conjunto, e para que isso ocorra é necessário que o indivíduo queira, que o indivíduo busque essa melhora a cada dia, mantendo hábitos saudáveis, pensamentos positivos, tendo fé e acreditando que a maior força e o maior responsável por sua melhora é ele mesmo. O tratamento espiritual, primeiramente visa auxiliar na melhora de algo que aflija ou incomode o corpo físico ou o espiritual, podendo também atingir os dois em conjunto, o que é mais comum, já que segundo o espiritismo, o corpo físico reflete a condição do espiritual, caso este esteja desequilibrado, o físico irá manifestar esse mesmo desequilíbrio, o que se da em forma de doenças, tornando assim tão difícil o estabelecimento do que é a cura. Qualquer pessoa pode receber tratamento e auxílio nessa religião, não sendo cobrado nenhum tipo de recompensa, nem financeiro nem de obrigatoriedade em aceitar e seguir os ensinamentos kardecistas. O individuo pode seguir outra religião e receber tratamento espírita, pois não é a religião ou as manifestações religiosas que importam, qualquer indivíduo será acolhido pelo que é e acredito, tendo em vista o lema da religião: “Fora da caridade não há salvação”. O espiritismo afirma ser uma religião sem rituais, mas não há como dizer que o simples fato de haver um horário pré determinado, um local e condições ambientais adequadas (como a penumbra), a prece antes e depois de qualquer tipo de trabalho, não seja um ritual, é um ritual pré estabelecido.

Bibliografia
site da Federação Espírita Brasileira, . Acesso em :16 de abril de 2013
site da Federação Espírita Brasileira, . Acesso em :16 de abril de 2013
Site do Grupo Bezerra de Menezes . Acesso em :16 de abril de 2013
ALVES, PC. , and MINAYO, MCS. , orgs. Saúde e doença: um olhar antropológico [online]. Rio de Janeiro: Editora FIOCRUZ, 1994. 174 p. ISBN 85-85676-07-8

Práticas curativas informais empregadas por pessoas com transtornos mentais.

Fabrício Martins Pinto

RESUMO
O presente artigo trata do tema dos saberes curativos informais, distantes dos discursos médicos, que são empregados por pessoas que vivem na loucura. Busca-se aqui compreender a pluralidade de modos de vida, no sentido de observar as diversas concepções sobre doença e saúde. Investiga-se também a ação de alguns mentalmente transtornados ante quadros de crise. Para tanto, foram abordados três casos: dois internos de uma clínica psiquiátrica do Espírito Santo e um morador de uma das residências terapêuticas do estado.

MÉTODO:
Em pesquisa de campo, juntamente com a observação do contexto e dos indivíduos, foram empregadas, oralmente, três entrevista com três pacientes diagnosticados com insanidade mental. A despeito das entrevistas serem o foco do trabalho, considerações são estendidas acerca de outras pessoas em mesma situação nos locais de pesquisa.

INTRODUÇÃO:
Ao abordar o tema das práticas curativas populares, que se distinguem do discurso médico formal, busca-se, antes de tudo, colocar em questão o distanciamento que se faz entre esses dois logos. É no paradigma cientifico moderno que se vê a valorização desse modo de saber, mesmo que isso signifique o veto de saberes populares, independente do significado, das implicações e da eficiência desses.
Sobre isso, diz Foucault:
“(. . . ) que tipo de saber vocês querem desqualificar no momento em que vocês dizem “é uma ciência”? Que sujeito falante, que sujeito de experiência ou de saber vocês querem “menorizar” quando dizem: “eu, que formulo este discurso, enuncio um discurso científico e sou um cientista”?” (FOUCAULT, M. – Microfísica do Poder – Rio de Janeiro, Graal, 1988. p. 13. )
No plano da saúde mental, é notória a convivência entre saber científico e o saber informal. Ainda que instituições psiquiátricas e moradias terapêuticas sejam espaços de práticas médicas, psicológicas, farmacológicas, diagnósticas e clínicas, são também espaços onde sujeitos se utilizam de práticas informais, ritualísticas, simbólicas e culturais para minimizar e sanar suas aflições. Quanto a isso, vale ressaltar a particularidade com que essas práticas populares se dão na loucura, uma situação de percepção diferente do sujeito para com o mundo: daí veio parte da motivação para a escolha do tema. Ressalta-se aqui que não há interesse em discutir a construção ocidental do conceito de loucura: usa-se o termo no sentido de se referir a outro modo de vida.
No caso dos considerados insanos, vê-se muito dos hábitos cotidianos tradicionais elevados a níveis bastante ritualísticos, caracterizando-os enquanto performances, principalmente no que se refere ao observado no espaço da clínica psiquiátrica. Nos casos abordados, o cantar toma caráter terapêutico, o isolamento se torna ritual e demais ações corriqueiras ganham, junto a outros fatores, grande eficácia simbólica no contexto.
Foi adotada, como base teórica para esse trabalho etnográfico, especialmente no sentido de fornecer conteúdo e conceitos básicos do campo da pesquisa antropológica, a obra “Saúde e doença: um olhar antropológico”, de múltipla autoria e tendo Paulo César Alves e Maria Ce-cília de Souza Minayo como organizadores.

DESENVOLVIMENTO
Para o trabalho, foram abordados, no mês de março de 2013, três casos. Dois dos entrevistados eram internos de uma clínica psiquiátrica do estado do Espírito Santo, enquanto o terceiro entrevistado morador de uma das residências terapêuticas da Grande Vitória. A fim de preservar o anonimato das instituições e, especialmente, dos participantes, serão eles aqui reportados como: João I, João II e João III. João I e João II internos da clínica, e João III mo-rador da residência terapêutica. Ressalta-se, ainda quanto aos participantes, que os três eram do sexo masculino, por questão de conveniência. Eram medicados, e tinham idade entre 30 e 55 anos. A despeito disso, relatavam e confirmavam momentos de aflição, como, por exemplo, os princípios de surto. Nesses momentos eram importadas práticas para amenizar a situação, sendo essas distantes do saber médico institucionalizado. Os dois casos da clínica psiquiátrica tinham o diagnóstico de esquizofrenia.
João I, esquizofrênico, completava pouco mais de um ano de sua internação na tal clínica psiquiátrica: não era a primeira vez. O motivo de sua última internação foi um surto, em sua casa, que culminou em comportamento agressivo e destrutivo por parte do sujeito. João I fora internado por sua mãe, e relatava a situação de forma breve e arredia. Não há, no entendimento dele, motivo para estar na clínica: ele reconhece que seus momentos de surto seguidos de agressividade, como o que motivou sua internação, são patológicos, mas não reconhece a continuidade da doença: entende que a doença só está presente em alguns momentos, nos de maiores perturbações. Delírios, descontinuidade de pensamento e a falta de sentido em muito do que fala são partes de seu modo de vida, não havendo aí a configuração dessa cotidianidade enquanto doença.
Quando, por ventura, a despeito de toda medicação, dá-se uma situação desconfortável para João I, se ele percebe tal momento, são empregados métodos a fim de aliviar a aflição. De profissionais da clínica, soube-se que João I, não raro, em dias “mais atacados”, coloca-se a falar pelo lugar, muitas vezes, cantando.  João I relata o isolamento em seu leito como uma das práticas mais empregadas para amenizar a situação, falando, em especial, de um cobertor com que cobre a cabeça nessas horas. Nessa situação vê-se o “ir até o leito” e, talvez, “o cantar”, ritualizados como parte das performances em busca do apaziguamento, bem como, na situação relatada pelo entrevistado, o “cobertor”, que adquiri uma eficácia simbólica tamanha sendo imprescindível para os “momentos de doença”.
 Tal fato evoca um dos internos da clínica, que por questões de motivo maior, não foi entrevistado, mas ainda assim vale o relato. Esse interno, que se dizia um “cavaleiro missionário”, carregava com apego um rosário, mostrando o objeto e dizendo que só Jesus, mistificado na figura do rosário, o ajudava naquele lugar. Outro interno, também não entrevistado, andava com uma manta e, passando-a em mim – eximo-me aqui da impessoalidade do texto -, consagrou-me, segundo ele, “rei” daquele lugar. Percebe-se então a mudança dos meros objetos para materiais simbólicos, dotados de um valor transcendental.
Na segunda entrevista, realizada com João II, nota-se, logo de início, algo distinto: João II, esquizofrênico, reconhece e diz ter uma doença. João havia sido internado após diversos surtos, resultando, uma dessas crises, em uma complicação judicial. Fazia mais de dois anos que estava no hospital, mesmo com alta médica. João II, meio sem jeito, ao ser indagado sobre o problema que tem, diz sofrer de “problema na cabeça”, confirmando que ouve vozes e relatando, em seguida, que a mãe dele fala que isso ocorre desde sua infância. João II diz, com clareza, que precisa de assistência, pensando na vida após sair da clínica, sendo isso uma preocupação para ele.
Quando perguntado sobre o que ele faz em seus momentos de maior acometimento da patologia, João II faz questão de ressaltar que essas situações têm pouca freqüência. Em seguida, relata que quando estava, particularmente, fora da instituição psiquiátrica, buscava o apoio espiritual: costumava rezar e ir à igreja perto de sua casa em Vitória. O isolamento também era um caminho para João II, mas não havia um símbolo material para buscar a quietude “em sua cabeça”. A busca pela tranqüilidade e distração, ainda que o lugar não se parecesse propício a isso, era como dispositivo para evitar os períodos de afloramento da doença: com o mesmo intuito, João II auxiliava a enfermeira de sua ala.  Contou também que, no caso das alucinações auditivas, algumas vezes, ele procura atender as vozes ou as tenta compreender. Vê-se aí a busca pelo fim da inquietude, pela cura, no próprio delírio. João II diz que em casos que se aproximavam do descontrole, principalmente no início de sua internação, ele pedia, quando possível, a solução medicamentosa.
O terceiro e último entrevistado, João III, era morador de uma residência terapêutica, convivendo em um contexto extremamente destoante da clínica psiquiátrica. A residência, que objetiva, dentre outras coisas, o convívio social do indivíduo e a quebra de sua posição de “paciente”, propicia outra realidade. Os medicamentos, em quantidade, não são tantos. Além disso, se for de sua vontade, o sujeito se engaja mais em atividades e ações que atendem ao seu modo de vida, aproximando-os da casa e da comunidade: ao menos essa é a realidade da residência terapêutica de João III. Em seu cotidiano, João III anda pelas proximidades do bairro, visita a outra residência terapêutica próxima da sua e participa de afazeres domésticos, do convívio com os outros moradores e de atividades terapêuticas no Centro de Atendimento Psicossocial (CAPS) de sua região.
João III, quando perguntado onde estava antes de morar em sua atual residência, disse que se encontrava em uma instituição psiquiátrica da Grande Vitória. Ao longo do conversado, disse que era doente àquela época, e o motivo de sua internação era porque “tinha dor de cabeça”: falou isso de forma bem insegura. Confirmou que ouvia vozes nessa época e atualmente, depois de anos internado e já morando na residência terapêutica, afirmou estar curado, sem doença alguma. João III não reconhece algumas de suas falas, que carecem de sentido, enquanto um sintoma de doença. Também não nota os desvios de seus comportamentos, não percebendo isso como problema. Não há relato de surto recente dele na residência.
João III, se referindo ao tempo em que estava internado, também relatava o isolamento em seu leito como algo que o ajudava com seus problemas. Da mesma forma, o isolamento distante até mesmo do leito, longe de companhia, era empregado. A busca pela calmaria, tendo o leito como local de segurança ou a ausência de pessoas como tranqüilidade, era caminho de apaziguamento e até solução aos momentos de maior aflição.

DISCUSSÃO E CONCLUSÃO
Ainda que o abordado seja restrito a esses casos, não podendo se inferir uma generalização das práticas empregadas pelos insanos ao curar seus problemas, vemos algo de similar: há envolvida, nesses casos, a transformação de simples ações, situações e objetos em performances, rituais altamente significativos e dotados de grande eficácia simbólica.
Além disso, é possível discutir a complexa compreensão de doença por parte dos entrevistados. Aqui é abordado caso interessante, de uma pessoa que sofre de transtorno mental e reconhece a constância de sua doença, que aflora em seus momentos de crise, dependendo de uma série de condições. Nos outros casos, notam-se pessoas que não se percebem enquanto doentes constantemente, sendo que um deles reconhece alguns momentos de delírio e de surto enquanto doenças e outro não aparenta se dar conta, com clareza, de seus distúrbios. Pode-se destacar também, nesses três casos, a diferença entre a influência dos lugares na concepção de doença e saúde. É no interior das instituições psiquiátricas, com caráter clínico, que essas três pessoas se viam, de algum modo, doentes, acometidos por algum distúrbio. No caso de João III, no contexto de residência terapêutica, mais distante dos locais que segregam a patologia da normalidade, ele não se percebia afligido por nenhuma complicação.
Outro ponto de relevância nessa pesquisa é a questão da individualidade. Não há, nas práticas relatadas nesses casos, um indivíduo curador do indivíduo a ser curado. Há a própria pessoa que conduz o seu ritual e atribui o devido valor a determinados objetos e a determinados contextos. É o próprio sujeito acometido pela aflição mental o responsável por esse processo de cura, pela performance, por garantir a eficácia simbólica e por ser curado.
Por fim, sem a pretensão de entrar no mérito da discussão acerca da efetividade das práticas curativas informais empregadas por pessoas com distúrbios mentais, conclui-se da importância das mesmas: é com essa ritualização, que no mesmo ambiente de um discurso institucionalizado, dá-se o saber da vivência, situando esses indivíduos não apenas como passivos no processo de tratamento psicológico e psiquiátrico, mas muitas vezes como pessoas que mos-tram outros modelos de doença, de saúde e de vida, e também como pessoas que confrontam, nas suas maneiras, suas próprias mazelas.

BIBLIOGRAFIA
RABELO, M. C. M. Saúde e Doença: Um olhar antropológico - Religião, Ritual e Cura. Editora Fiocruz.
LAPLANTINE, F. , 1943. Aprender antropologia. Trad. : Chauvel, M. A. São Pau-lo:Brasiliense, 2003.
FOUCAULT, Michel – Microfísica do Poder – Rio de Janeiro, Graal, 1988.

A Igreja Messiânica e a cura pelo Johrei 

Tuhany de Oliveira Sabino

Resumo:O presente artigo descreve as características das religiões messiânicas , uma experiência de cura de uma fiel e suas concepções de saúde e doença. Os resultados apontaram que existem outras práticas de cura além da medicina tradicional, especifi-camente no caso estudado a cura pelo Johrei. Foi realizado um estudo de caso, através de entrevista oral e escrita, juntamente com uma pesquisa de campo.
Palavras-chave: Johrei, messianismo, saúde, doença e cura.

1. Introdução
A proposta deste artigo é fazer uma reflexão acerca dos diferentes modos de curar existentes na Grande Vitória, em especial foi investigado a comunidade da Igreja Messiânica Mundial localizada em Vitória no Espírito Santo. Com embasamento do livro Saúde e Doença:um olhar antropológico, buscarei ao longo do trabalho identificar as categorias que ela utiliza para se referir a sua fé. Pontuarei na fala de Eva- nome fictício da participante- Suas concepções de saúde doença e cura. Identificarei também onde está o ritual, a performance a eficácia simbólica como ela categoriza sua fé, e o quanto isso norteia sua vida.

A Igreja Messiânica suas concepções e o poder do Johrei
O messianismo tem como características essenciais a revelação divina ou iluminação, a passagem por um período de provação e a superação da provação, sendo seguida da missão de transmitir a mensagem enviada por Deus. O que aconteceu com o fundador da igreja Messiânica Mundial não foi diferente, Mokito Okada(1882-1955) tendo titulo religioso de Meishu-Sama(Senhor da Luz), teve uma iluminação divina no alto do monte Nokoguiri no Japão por volta de 1931. Após essa experiência:

 A Igreja Messiânica Mundial foi fundada em janeiro de 1935 por Mokiti Okada (1882-1955) no Japão com o objetivo de criar uma civilização es-piritual e materialmente desenvolvida.
Para tanto, ela se propõe a formar pessoas espiritualistas, que acreditem em Deus e no mundo espiritual, e altruístas, que tenham o hábito de praticar o amor ao próximo.
Com o aumento de pessoas com essas características serão possíveis a cri-ação de um mundo melhor e a formação de uma sociedade harmoniosa, pacífica e alegre. (www. messianica. org. br)

A igreja Messiânica Mundial (IMM) possui três pilares da salvação sendo eles a prática do Johrei (que é entendida como a transmissão da luz divina pelas palmas das mãos) a prática da agricultura orgânica o chamado Korin e cultivar o Belo que significa valorizar a arte e a criação de coisas belas em geral acreditando que isso eleva o espírito.
Os seguidores de Meishu-Sama possuem uma concepção vitalista na qual entendem saúde como uma condição natural do homem, que só é suprimida pelas manifestações das Máculas.
Em razão das concepções de mundo messiânicas que fazem uma ligação direta entre espírito e matéria, as doenças podem ser causadas por influencias de seus antepassados, pela contaminação de seu sangue por toxinas, ou por pensamentos ruins, já que consideram o pensamento parte do mundo espiritual, o espírito precede a matéria. Nesse contexto essas contaminações resultariam em Máculas que refletem no corpo os males do espírito. Daí observa-se a ligação entre a cultura de manter sempre pensamentos positivos e otimistas sobre a vida, assim como o significado da agricultura orgânica sem adição de agrotóxicos, os três pilares da salvação exercem eficácia simbólica na vida cotidiana dos membros da IMM uma vez que norteiam seu estilo de vida.
Na religião Messiânica as Purificações conduzem a cura, esse processo é muito impor-tante para a limpeza do espírito e toda linhagem de seus antepassados, por esse motivo esses momentos de provação e sofrimento são muito valorizados. As Máculas devem ser aceitas com gratidão, pois fazem parte da missão e da obra de Meishu-Sama para a vida do fiel. A doença entendida como Mácula elabora uma metáfora entre o mundo material, biológico e o mundo espiritual.
Outro ponto importante na prática ritual da IMM é a iniciação do iniciante outorga-lo como membro através da entrega de um Hikari, que representa um ponto de concentração de poder da luz divina carregada por cada membro, na posse do Hikari o membro pode aplicar Johrei e transmitir luz Divina, que purifica e traz saúde e felicidade. A prática do Johrei é ponto central de manifestação do poder de Meishu-Sama na religião messiânica, pois o Johrei é concebido como sendo uma poderosa prática curativa, por que ele transmite o que há de mais poderoso para os Messiânicos a luz Divina. Foi através do Johrei que o caso estudado na pesquisa etnográfica em questão obteve sua cura.
A participante da etnografia vai receber o nome fictício de Eva a fim de preservar sua identidade. A entrevistada em questão tem 20 anos de idade é filha de médicos, sendo seu pai já falecido. Mora em Vitória e é Membro da IMM frequentadora da sede de Vitória/ES local da minha pesquisa de campo e conversa com Eva.
No ano de 2012 Eva fez uma peregrinação ao Japão para visitar e dedicar (realizar ações que contribuam com o local em questão) em três solos sagrados: Solo Sagrado de Atami, Solo Sagrado de Kyoto, Solo Sagrado de Hakone. Durante a viagem Eva começou a apresentar sangramento pelo nariz , vermelhidão e ardência na pele, decorrentes da exposição ao sol, pois Eva sofre de Porfiria uma doença que não permite certa dose de exposição ao sol. No fragmento seguinte da fala de Eva pode ser observado impressões da visão de mundo messiânica pelo modo que ela se refere a doença:
Fomos ao Johrei Center Toyota (composto por muitos brasileiros), no qual os membros realizaram um tipo de festa para nos receber. Então, começou a sair muito sangue do meu nariz e fui diretamente ao banheiro, enquanto várias pessoas me ministravam johrei, até que alguém falou que iria pegar uma câmera para tirar foto, no momento, achei muito estranho, mas depois me explicaram que os japoneses sentem muita gratidão pelas purificações e queriam registrar aquele momento.

Ela não se refere ao que está passando como doença e sim como Purificação, mesmo ao falar das queimaduras na pele decorrentes da Porfiria:
Durante a dedicação, meu rosto começou a queimar, me concentrei para fa-zer o máximo que conseguisse, pedindo a Meishu-Sama que esse meu 1% de esforço fosse o suficiente para mudar todos os 99%.

Na minha estadia em Kyoto, eu mudei meu sentimento em relação a minha purificação na pele, pois não aceitava de maneira alguma, mas como tivemos uma palestra em que nos foi passado que deveríamos entregar verdadeiramente a Meishu-Sama o nosso saco de preocupações e problemas sem querer pegar de volta e também como havia aprendido com os japoneses que devemos ter muita gratidão pelas nossas purificações, eu realmente comecei a sentir gratidão pela minha, pensando que milhares de antepassados confiaram em mim para limpar toda a linhagem, então, no mínimo eu deveria responder a altura toda essa confiança.
No relato de Eva ela sempre vai tratar a doença como Purificação, e sua postura vai seguir sempre uma lógica ritual dentro da construção messiânica de saúde doença e estilo de vida. Durante seu período de Purificação ela relata vários sonhos que esclareciam a ela o que estava se passando, e eram sempre interpretados como propósito de Meishu-Sama em sua vida. Os sonhos e visões no relato de Eva ilustram uma forte característica da espiritualidade messiânica que acredita no contado com o mundo espiritual, e o envio de mensagens por intermédio desses contatos, também é importante observar que ela sentiu a manifestação da figura do Pai algumas vezes durante essa experiência, mas uma vez contato com o mundo espiritual:
 Antes de irmos dedicar neste Solo Sagrado, faríamos a oração Amatsu Norito, então, começou a sair um pouco de sangue do meu nariz e eu me dirigi ao banheiro e uma caravanista me acompanhou, ao retornamos conseguimos entoar a oração, entretanto, a voz que ela entoava era a do meu pai, falecido há 10 anos, neste momento, eu me arrepiei toda e senti que ele havia se outorgado no Mundo Espiritual, uma vez que ele não era membro em vida. Depois, perguntei-a se rezava assim sempre, então ela me disse que algo não deixava rezar da maneira normal, simplesmente não conseguia mudar o tom.
Como já ressaltei a metáfora de sonhos como mensagens faz parte do messianismo, essa metáfora também compõe o relato de Eva:
Depois de passar alguns dias em Kyoto, fomos para Atami. Na primeira noite que passamos no hotel, durante o jantar tive uma crise convulsiva, mas diferentemente do que acontecia no Brasil, em que sonhava que estava num toboágua cheio de água e era puxada, dessa vez, sonhei que os antepassados de uma das caravanistas pediam à mim que dissesse a ela que estavam muito felizes por ela estar no Japão e pediam que ela rezasse por eles.
Eva passou então por vários problemas de saúde queimaduras nos rosto, o sangramento recorrente no nariz e Fecaloma. Ficando bastante debilitada por um período por qual passou por três internações. Depois da última internação Eva concentrou seu tratamento através do Johrei foi feita vigília de 24 horas de Johrei na sua casa , ela depositou todas as suas esperanças no tratamento pela luz divina e gratidão pela Purificação, Eva se considera curada pelo Johrei e pelo poder de Meishu-Sama.

Considerações finais
Este trabalho teve como objetivo observar as práticas curativas na grande vitória, tendo sido desenvolvida uma etnografia mais especificamente sobre a cura pelo Johrei.
Sendo esse trabalho parte integrante de uma proposta que visa conhecer os meios pelos quais as pessoas se curam e entendem cura, foram apresentados no decorrer do texto concepção de saúde doença e cura na visão da igreja Messiânica Mundial e uma experiência de cura. Utilizando como referência o conteúdo do livro “Saúde e doença:um olhar antropológico” foram pontuados no discurso da participante as categorias que ela utiliza para descrever sua crença. Mas uma vez abro espaço para realizar analises acerca disso é ponto marcante na organização do espaço do templo messiânico imagens, obras de arte, cânticos, orações e escrituras em japonês que remontam há origem oriental da igreja, estes símbolos compõem na performance dos cultos realizados ali, dão aspecto de sagrado a aquele espaço, que sem aquela organização poderia ser um espaço qualquer, entretanto devido a presença dos símbolos religiosos categoriza-se aquele espaço físico como sagrado.
O silêncio compõe o ritual messiânico, durante a aplicação de Johrei ele se faz necessário, a transmissão de luz divina apesar de não exigir concentração exige o silêncio, isso confere um traço particular a essa performance.
Estudos como esse são enriquecedores para o saber da psicologia, pois trazem para analise práticas que compõem a subjetividade dos sujeitos, ilustram como a crença atravessa todo o modo de ser no mundo desses sujeitos. O modo pelo qual se dão as práticas curativas oferecem pistas da história e da coletividade do individuo. Observando o processo transformativo do ritual fica visível a mixagem entre a subjetividade hegemônica (discurso e modo de pensar da doutrina religiosa) e a subjetividade individual, que confere uma forma única na experiência curativa por exemplo.
Por fim, pode-se concluir que o modo de viver diz muito sobre o modo de curar, e o quanto isso depende de um contexto especifico. Aonde o discurso médico se afasta sur-gem saberes populares e religiosos, que vão suprir a busca pela cura e solução para as aflições cotidianas:
 Ao invés das explicações reducionistas da medicina, os sistemas religiosos de cura oferecem uma explicação à doença que a insere no
contexto sociocultural mais amplo do sofredor (Comaroff, 1980, 1985). Mais do que atribuir uma causa objetiva a estados confusos e desordenados, a interpretação religiosa organiza tais estados em um todo coerente (Lévi-Strauss, 1967). Enquanto o tratamento médico
despersonaliza o doente (Taussig, 1980), o tratamento religioso visa agir sobre o indivíduo como um todo, reinserindo-lhe como sujeito, em um novo contexto de relacionamentos. ( ALVES, PC. , and MINAYO, op. Cit. ).

Referências bibliográficas
LAPLANTINE Françoise:Aprender antropologia. Brasiliense, 2003.
ALVES, PC. , and MINAYO, orgs. Saúde e doença: um olhar antropológico[online]. Rio de Janeiro: Editora FIOCRUZ, 174. Avaliable from Scielo Books.
http://www. pucsp. br/nures/Revista13/goncalves. pdf
http://www. meishusama. org/homepage/jol. htm
http://www. meishusama. org/