01 maio 2010

Uma gota d’água e duas de sangue.

Sandro Silva

Em recente lançamento de livro no Palácio Anchieta, o governador Paulo Hartung elogiou os religiosos que (sic) construíram com bravura aquele palácio imenso. Como foi possível? Eu segurei a boca para não contestá-lo: Governador, foram os índios e os africanos escravizados que construíram o palácio. Fiquei calado, pois o evento era uma encenação do poder. A história capixaba tem se resumido a olhar para as pontas: um começo trágico e um presente triunfante. Este efeito da história dos extremos nos ensina muita coisa. Primeiro que devemos observar mais os símbolos do poder e segundo que “os vivos governam os mortos”.
Na história dos extremos faltava uma peça importante na construção da convicção pública das elites políticas capixabas: a Ditadura. A história do presente ainda não havia quitado sua dívida com ela, mas apenas ecoado o mantra dos Grandes Projetos da década de 1970, com os mesmos heróis e sem maiores críticas. Mas esta era uma narrativa de outra geração muito mais engajada com a Ditadura. Era preciso se desfazer deste passado exorcizando-o com outras memórias. Era preciso imaginar outros mortos.
Para conectar o passado ao presente de uma maneira plausível esta geração precisava inventar sua ilusão biográfica usando a visão corrente da imaginação do Nacional que a Ditadura propicia. Ela deveria acreditar que contaria uma história do passado, quando na verdade narraria o desejo do presente. Neste cenário, a Ditadura é o espantalho literário que provê todas as fontes de imaginação de grupos dentro da Nação e poderia conferir pedigree aos seus narradores.
Um destes conteúdos que me chama sempre a atenção é o sacrifício. A ilusão biográfica se concentra no drama violento, recheado de pequenas pitadas de sadismo dos torturadores, cenas de cavalos, gente correndo, fichas datilografadas, falas inspiradas, entrecortadas de depoimentos. Quem narra estas histórias indica que o sacrifício pela liberdade foi a razão maior de suas vidas, uma marca inesquecível.
O sacrifício é aquele lugar social em que cabem o saldo de todas as dívidas presentes, passadas e futuras. Quem se sacrificou tem a benção da sociedade e é inscrito como cidadão de primeira classe. Narrar o seu sacrifício é também expor as razões e justificativas para o lugar que se ocupa nas mentes humanas, nos lugares de poder e produzir uma história de si como se deseja ser visto. A Ditadura existiu, mas ela precisa continuar a ser imaginada e controlada pode determinados atores.
Há muitos filmes sobre a Ditadura e todos percorrem o mesmo itinerário sacrificial construindo seres à parte. O filme “Geração Gota D’água” (2010) de Paulo Fabris não foge à regra. Nele personagens bem situados no presente, narram qual a sua parcela de sacrifício que os autoriza a estarem onde estão. Iniciados, revolucionários, pelegos, todos convertidos em Geração: professores, empresários e governadores, olham de dentro da película e enxergam o presente.





A naturalização da ilusão biográfica foi o que mais me chamou a atenção, pois nela as pontas da história dos extremos estão impecavelmente conectadas. Todos figuram no mesmo plano narrativo de imaginação da Geração no tempo e no espaço. O filme poderia ser lido como uma maneira específica pela qual as elites constroem sua própria biografia e como a imagem de si é fundamental em experiências bem delimitadas.
O filme, financiado pelo governo do estado, não deixa escapar o elogio ao poder na história dos extremos, apagando os interstícios, as frestas, as vozes dissonantes. Repleto de depoimentos ele deixa pouco espaço para reflexão, especialmente se você não for um capixaba que transita na UFES. Aqui talvez um ponto importante. O filme é um espelho da UFES não exatamente no seu papel revolucionário, mas nas elites e caminhos que ajudou a formar e consolidar como projeto. A seleção dos personagens deixou de fora outras narrativas, talvez vencidas pela Geração, ou aquelas inomináveis que, do presente, continuam produzindo a ilusão do passado, até que outros mortos se apresentem.

Um comentário:

Lorenza disse...

"os vivos governam os mortos". adorei essa frase e acho que resume bem o filme. A exaltação de uma geração, representada por um seleto grupo que hoje chegou ao poder... me pergunto quanto de mérito teria nisso...

mas, acho que, se esse grupo é capaz de fazer isso com os mortos, tenho medo do que farão ainda mais conosco...!