03 março 2009

São José do Queimado e a memória no Espírito Santo


19 de Março dia de São José e da "revolta de Queimado". o que os capixabas vão comemorar?
Sandro José da Silva
Antropólogo e professor na UFES

Uma das expressões mais importantes do poder são os símbolos. Na formação das nações eles são usados para afirmar a sua presença criando espaços singulares ao longo do tempo. Estátuas, pontes, parques e mesmo cidades inteiras foram construídas com o objetivo de marcar o espaço com as relações de poder. Podemos considerar os monumentos parte da memória da nação. Eles podem nos ensinar muito sobre como as diferentes sociedades se relacionam com essa forma particular de narrar o presente a partir de um passado reconstruído. Quando falamos de memória e símbolos, falamos de relações de poder.
Os símbolos foram pensados muitas vezes como uma herança e legado às futuras gerações. Durante a formação das nações obras monumentais foram construídas para atestar a grandiosidade de seus protagonistas enquanto monumentos antigos foram valorizados como forma de traçar uma linha de descendência que legitimasse as relações do presente. Os templos gregos são sinônimos da sabedoria do Ocidente, enquanto as pontes imensas sobre os rios atestam o triunfo da humanidade sobre a natureza. Ironicamente, o terceiro Reich pretendeu construir cidades grandiosas para que no futuro longínquo as civilizações pudessem contemplar as ruínas de seus poderosos civilizadores.
O estado foi protagonista da união entre símbolo e memória e grande parte da legitimidade do poder é traduzida em obras. No Império os grandes atos de Dom Pedro foi sua peregrinação pelo Brasil inaugurando aqui e ali praças, igrejas, prédios públicos, etc. As primeiras ações da República foram colocar a baixo a velha cidade sinônimo do atraso social e das oligarquias escravistas. Sob os escombros da velha ordem feudal os republicanos fariam surgir à nova ordem igualitária voltada para os valores universais da civilização.
Mas, a sociedade civil também se vale da memória e dos símbolos de diferentes maneiras. As grandes marchas, os espaços de protesto, a crítica a determinados símbolos fazem parte das formas pelas quais diferentes grupos se pensam enquanto produtores de identidades diferenciadas. Em boa medida a luta pelo espaço é também a luta por constituir identidades sociais.
Por isso os símbolos estão sempre em disputa. Por isso eles são sobre alvo de controvérsias e lugar de expressão de contendas. Em muitas situações, os símbolos traduzidos em monumentos pretendem criar uma separação entre os “civilizados” e os “bárbaros”: Estados Unidos e México, Israel e Palestina, Alemanha Ocidental e Oriental, etc.
Mas se a memória serve para construir ou expressar um símbolo ela serve também para eliminar outras memórias tornando-as periféricas, marginais, mortas. Sob os edifícios altos da grande metrópole jazem ruelas, sobrados e campos de futebol que modelaram relações pessoais, embalaram namoros e formaram a história de homens e mulheres. Sob a nova matriz jaz a igreja velha pertencente a uma ordem religiosa que perdeu o poder. Sob a orla moderna e assombrada, jazem as colônias de pescadores e os espaços deixados incólumes pela sazonalidade das marés. As ruínas da cidade são ao mesmo tempo símbolo de decadência e exemplos a serem superados pelas novas elites.

foto do sitio por volta da décade de 1940


São José do Queimado como patrimônio cultural dos capixabas.
A gestão administrativa do Espírito Santo entende mal o sito São José do Queimado. O abandono daquela localidade à própria sorte nos ensina muita coisa sobre as relações entre poder e símbolo, mas já é hora de reverter o ostracismo a que foi forçada aquela comarca e aprender com ela a história do estado. Quem ganha com isso é a própria história capixaba acostumada a dar as costas ao passado considerando-o sinônimo de atraso diante das novas elites.
Meu argumento aqui é que o abandono da vila de São José do Queimado deveu-se a associação contemporânea entre a sublevação de escravizados - conhecida como “revolta do queimado” -, a decadência da vila e o desejo das elites republicanas apagarem a história da escravização no estado. Argumento também que a preservação do patrimônio cultural até o momento deveu-se às memórias da sociedade civil que organizaram vários eventos que testemunham a relação entre a vila e a história da escravização sentida por eles como fundamental na compreensão das relações de poder no estado. Por último, considero criminoso o abandono e os destinos atuais de tal monumento, pois lesam o direito das presentes e futuras gerações ao acesso à sua história, memória e formas de identidade social, ferindo frontalmente a Constituição do país.
Uma igreja representava muita coisa no período colonial brasileiro. Ela era o símbolo do triunfo primeiro da empresa colonial e posteriormente se espalhou como espaço das pequenas elites. Em muitas cidades brasileiras algumas igrejas se iniciaram em terrenos doados pela oligarquia quando não raro ela própria construía em suas propriedades capelas particulares. A construção de uma igreja representa a heterogeneidade da sociedade colonial brasileira composta pela coroa, pela oligarquia, pelos homens livres e escravizados. Mestres de ofício, uma burocracia organizada, um comércio próspero e uma classe que se desloca do campo para a cidade como estilo de vida próprio ou, como no caso da escravidão, como forma de ampliar os negócios e aumentar as rendas. A “revolta do queimado” não pode ser compreendida fora de outros movimentos políticos e administrativos da colônia ou como ato isolado de uns “escravizados malucos”.
Mas até o momento muita ênfase foi dada ao papel do pároco que recusou a liberdade aos escravizados em São José do Queimado. Os conflitos entre senhores e escravizados e entre senhores e a província já se multiplicavam a esta época. A localidade da Serra era a terceira na província em número de negros e pardos cativos somando 41,7% diante das condições da escravização várias fugas foram registradas bem como ameaças a fazendeiros locais pela existência de quilombos na região. Este conjunto de informações nos leva a considerar que a “revolta do queimado” é parte das práticas de resistência à escravização que vinham ocorrendo em todo o estado e não um episódio isolado da província como atesta a historiografia contemporânea.
Os cativos, ao contrário do que informa a imagem da escravidão no Brasil, circulavam informações em torno dos acontecimentos como a Lei do Ventre Livre e a Lei dos Sexagenários e perceberam a decadência da atividade escravista como uma oportunidade de aumentar a pressão com fugas e outras formas de resistência. Elizário, João da Viúva e Chico Prego, para além da imagem individualista do herói, representam estes espaços de resistência, pois se olharmos para as reminiscências das suas biografias eles estavam empenhados em projetos de liberdade que ia desde o aprendizado de ofícios até a insurreição contra o sistema escravista.
Das ruínas à memória capixaba
Compreender São José do Queimado vai além de restaurar as ruínas no município da Serra. Ele deve representar um esforço de incorporar outras perspectivas da história capixaba e ajudar a pensar a formação da identidade e o processo de constituição econômico e social.
É estranho o fato da Câmara do município comemorar publicamente a conservação da ruína de São José do Queimado, pois as novas gerações vão sempre vê-la como “ruína” e não como um espaço importante da constituição do estado. Não devemos comemorar, mas ampliar as possibilidades de participação da população na preservação e promoção da história capixaba através de atos públicos como a criação do circuito que associe memória e desenvolvimento social na região. O que interessa à população não é a ruína, mas o que ela representa: o declínio da maior forma de violência que o país já conheceu. Em várias localidades no Brasil, os administradores transformaram espaços históricos em oportunidades de desenvolvimento social, fomentando a educação, o turismo e a conservação.
A preservação do patrimônio cultural de São José do Queimado não revela apenas a revolta dos escravizados, mas outras formas de memória do povo capixaba. O sitio de queimado é mantido não como um monumento da escravização ou da igreja, mas como símbolo da resistência que marca a trajetória da população negra no estado.
No cenário das Ações Afirmativas, a construção de um presídio no sitio de São José do Queimado, representa a ausência de perspectiva em relação à memória histórica capixaba, a recusa sistemática da preservação cultural e a desqualificação do que representa para o povo negro do estado o marco de uma das ações políticas de resistência ao escravismo mais importantes do Brasil.
O município da Serra mantém um patrimônio de festas e comemorações populares mais significativas do estado. Aos milhares esta população atualiza a memória do patrimônio cultural através de São Benedito, das congadas revelando o vigor e a forma peculiar de compreender a relação entre passado, presente e futuro conectando diferentes municípios na forma social de festa.


estado atual do sitio de São José do Queimado


A construção do presídio ao lado de São José do Queimado é uma prova inequívoca de que a Abolição foi um ato jurídico e que a Emancipação é um ato político ainda por se cumprir. O ato do governo confirma a imagem das elites sobre a relação entre poder e símbolo associando espaços de excluídos separados pelo tempo, mas não pela ignorância da administração pública.
Associar um presídio à memória do povo negro capixaba é uma forma de inscrever na memória social a representação que as elites têm da resistência negra ao cativeiro, à pobreza e muitos outros espaços de desqualificação. Este ato de governo transforma uma memória de resistência em uma vergonha coletiva indo de encontro ao esforço nacional de promover a diversidade étnico racial bem como as expressões de sua memória e trajetória própria.
A construção do presídio retira de pauta as reivindicações da população em manter e recuperar São José do Queimado como patrimônio cultural. A eminência da violência, fugas e operações militares, afasta a possibilidade de formação do turismo étnico com ganhos financeiros para a comunidade, sem contar com as inúmeras visitações de alunos em busca de compreender as raízes de sua história. Ou entendemos este ato como ignorância, ou como um fato intencional. Nas duas hipóteses, quem perde é a população branca e negra deste estado que terá sua memória roubada.

3 comentários:

Patrícia Almeida disse...

Esse ano, o ato ecumênico será dia 22/03 e como nos anos anteriores, terá ônibus saindo da Serra Sede, em frente à Igreja Católica.
São José do Queimado, resistência e luta do povo negro!!!

erleni disse...

Senti falta da história da revolta, que não é tão conhecida como deveria. Conte sobre como o fato se deu . Acho que conhecer a história poderia criar em outras pessoas o desejo de resgatá-la e aí sim o lugar não fosse mais visto como apenas uma ruína.

sandro disse...

erleni, de fato é uma das coisas que critico neste artigo. a folclorização da revolta não ajuda a compreender a história. vamos esperar um trabalho dos historiadores, quem sabe... obrigado.